
"D" de... dá-lhe.
No fone: Joanna Newsom - "The Book of Right-On"

Venho de uma geração que aprendeu a amar o cinema americano graças a diretores como Coppola, Spielberg, Scorsese, David Lynch. Por isso mesmo, me esforço horrores e não consigo enxergar em Os Infiltrados (2006) o filmaço-machão-ultra-do-caralho pelo qual cruzei os dedos. Era pra ser o retorno do nosso Marty ao mundo do crime, com o auxílio do superelenco dos sonhos de qualquer um. Mas até O Aviador me pareceu mais sofisticado, satisfatório, uniforme. Conflitos Internos, o original chinês, também. Óbvio que o cabeção instalado na minha frente durante TODA a sessão muito contribuiu para a decepção. E acreditem, me dói um bocado usar "Scorsese" e "decepção" na mesma frase. Se bem que... E o Jack de altos papos enquanto segura uma mão decepada? E todos aqueles 300 raivosos "fucks" ditos ao longo da projeção? E aquele final sequíssimo e sangrento a um só tempo? O grande erro de Scorsese parece ser mesmo a idade - só não queiram compará-lo ao picareta que virou, por exemplo, o Coppola. Nota 8.
Na contramão do Bond, Adrenalina (2006) entrega o nível já em seu cartaz: "acesse o site e concorra a um Playstation 2". Parece Comando para Matar com câmeras modernetes. É ação assumida e sem-vergonha, uma pauleirinha MTV curiosamente bem dosada e politicamente incorretíssima (só tem filho da puta em cena; Statham cheira todas, dá pau na Brigada e ainda chama um imigrante de Al-Qaeda). Nunca um título foi tão adequado. Nota 7.
Memórias de um Assassino (2004) representa uma espécie de cinema que os americanos um dia souberam fazer direitinho. O thriller coreano dá uma refrescada legal no gênero, até porque ele ignora a desgastada fórmula do suspense policial ianque, aqueles em que a gente não consegue entender como é que o Denzel Washington chega até a casa do criminoso com tão poucas pistas. No interior da Coréia do Sul, dois policiais violentos não conseguem solucionar um caso de serial killer. A bananice é tamanha, que faz com que eles recebam o auxílio de um investigador da capital. Este passa a mudar sua personalidade pacífica conforme mais corpos vão surgindo e o criminoso permanece incógnito. Enquanto isso a violência policial come solta, com direito a voadoras no pescoço de meia-dúzia de suspeitos e uma série de torturas realistas. Tenso, envolvente e às vezes assustador, é praticamente um Seven em ritmo de filme de arte, para mostrar (ou lembrar) a Hollywood como se faz. Corre para a locadora, pombas. Nota 8,5.
Nunca tinha me acontecido isso. Estava eu largadão no sofá de dois lugares lá de casa, vendo o tão sonhado DVDzinho de Caché (2005), tipo raro que exige da gente, nos respeita e enaltece o intelecto. Pois é nesse ambiente caseiro e solitário que se encontrava este que vos fala, longe da família e deitado com as pernas espichadas, imerso por completo naquelas imagens hipnóticas, fodidaaaaaças, e aí acontece uma coisa no filme que me faz saltar e sentar no braço do sofá com os olhos arregalados e o coração a milaço. A surpresa é total. Cena seca, socão na boca do estômago, disparado a melhor do ano. Aproveite bem a sessão, porque é perda de tempo tentar antecipar as verdades da trama. Certamente tu vais errar. Haneke é gênio sim, e quem discorda que vá sentar numa jaca. Nota 9,5.
Acostumado àqueles documentários fofinhos da National Geographic em que zebras, elefantes, leõezinhos e o homem convivem numa nice, em pleno estado de espírito? Pois sua visão do mundo selvagem está a um passo de mudar. Antes que alguém pense que O Homem-Urso (2005) é o novo super-herói da parada, é bom esclarecer que ele também é um documentário. Dos mais realistas. Na verdade, um incômodo e fascinante retrato de uma tragédia. O objeto de estudo do veterano diretor Werner Herzog é o seguinte: em outubro de 2003, o ativista norte-americano Timothy Treadwell, que durante 13 verões manteve o hábito de acampar em uma reserva florestal do Alasca habitada por ursos pardos a fim de “protegê-los”, foi morto e devorado, ao lado da namorada, por um dos animais aos quais devotava sua vida. A trajetória de Treadwell é narrada a partir das fitas de vídeo que o próprio gravou no Alasca (mais de 500 horas de material). O longa é complementado por entrevistas de pessoas que eram próximas ao ecologista; aos poucos descobre-se que ele era ator frustrado, alcoólatra e sobrevivente de uma overdose, para muitos um louco. Daí sua opção pelo isolamento. O interesse do diretor não é pela questão ecológica da coisa, e que bom para nós. Não perca, por favor. Nota 8.
Faster, Pussycat! Kill! Kill! (1965) é um desses cults B que só vêem a luz do dia anos depois. A estrela principal deste clássico da bizarrice fílmica é uma tal Tura Satana, que colhe os dividendos até hoje pelo papel da stripper karateca Varla. Ela faz questão de mostrar mais suas curvas do que a própria capacidade de atuar. Bom mesmo é o filme, a marginália em estado bruto, destruindo com estereótipos do american-way-of-life de maneira exemplar. Para o falecido diretor Russ Meyer, os homens são vítimas e as mulheres, perversas e perigosas, comandam. Depois de redescoberto por Tarantino, que pendurou pôsteres da produção nos sets de Pulp Fiction, Faster, Pussycat passou a figurar como um dos mais procurados no Emule, Kazaa e similares, teve sua canção-tema regravada pelos Cramps, até foi satirizado pelos Simpsons. Por incrível que pareça, a fita nunca foi distribuída no Brasil. Deve ter sido até melhor... imagine só a tradução! Nota 8,5.
Doente mesmo é Escravas da Vaidade (2005). É de surpreender a elegância com que o diretor de Hong Kong Fruit Chan aborda um tema dos mais escabrosos: o canibalismo. Para reconquistar o corpinho sarado e conseqüentemente a atenção do marido, uma atriz veterana recorre aos serviços de uma espécie de curandeira que tem um segredo culinário de rejuvenescimento. Ela faz bolinhos utilizando como ingrediente... fetos humanos! Não se preocupe, que tudo (bem...quase tudo) é feito de forma sutil e com uma leve pitada de humor negro. E as duas atrizes são muito boas. Nota 7,5.
2. Caché (França)
3. Munique (Munich, EUA)
4. Volver (Espanha)
5. Boa Noite e Boa Sorte (Good Night and Good Luck, EUA)
7. Viagem Maldita (The Hills Have Eyes, EUA)
9. A Lula e a Baleia (The Squid and the Whale, EUA)
10. Os Infiltrados (The Departed, EUA)
Sua vida anda meio sem-graça? Não agüenta mais a mulher enchendo o saco, o chefe besta torrando a paciência, o time que sempre abre as pernas na reta final do campeonato? Pois seus problemas acabaram! Pegue ***alerta! tradução afasta incautos! alerta!*** Como Enlouquecer seu Chefe (1999) e transborde de felicidade. É nada mais, nada menos que a estréia de Mike Judge em celulóide, e olha, descrever o que o pai de Beavis & Butthead fez aqui não é fácil.
Tenho simpatia por quase todos esses que fracassam na estréia e fazem sucesso bem depois, com o boca-a-boca. O Homem de Palha (1974) é um deles. Christopher Lee foi o Drácula em pessoa e mata a pau até hoje, mas aqui periga ter o seu grande papel. Falei que não tô a fim de ver a refilmagem? Nota 7,5.
Lá pela meia-hora de Despertar dos Mortos (1978), George Romero parece acordar pra vida e dizer “bem, vou fazer um filmaço!”. A partir daí o nível de sanguinolência, que já não era brincadeira, atinge níveis inimagináveis, com muitos closes de músculos e vísceras sendo arrancadas a dentadas e unhaços. Punk como a gente gosta. Amigo meu lá do jornal, do alto de seus 40 e poucos anos, veio dizer que na época que viu no cinema a galera ficou semanas sem comer carne... A trilha e os planos elegantes são coisa de um Kubrick ou Bergman (não, eu não estou exagerando) e os dublês também merecem aplausos (as crianças mortas-vivas convencem na hora que o pau come, um zumbi tem a tampa da cabeça arrancada pela ação de uma hélice de helicóptero, outro pobre-coitado leva um safanão e dá de cara numa moto... em movimento). Um sangrento superespetáculo. Nota 9.
Sabia que O Homem dos Olhos de Raio-X (1967) tinha Ray Milland no elenco e tal, só não lembrava que era do Roger Corman, o bisavô dos cineastas independentes. Só ele mesmo pra filmar aquele final incômodo e muito trash. Nota 8.
Já Takashi Miike é sim, um mestre. Marcas do Terror (2004), sua contribuição para a série da HBO, teve a exibição vetada na última hora pela emissora americana. Acharam muito pesado pros padrões deles. Queriam o quê? Algo insosso, inodoro, indolor? Que contratassem a equipe de Jogos Mortais, pois! Imprint é o horror em sua forma mais pura e poderosa, com direito a uma cena de tortura niilista pra caralho, marcante, hipercinética. Por que é tão difícil que a filmografia desse cara chegue até nós? Nota 8.
Adorei A Lula e a Baleia (2005). Roteiro saboroso, dupla central despida de estrelismos (Laura Linney safaaaada, Jeff Daniels em luminoso momento Bill Murray), trilha bizarra. Um dos poucos filhotinhos de Wes Anderson que deram certo. Filmão. Nota 8,5.
Abismo do Medo (2005) vai me obrigar a seguir cada passo do diretor Neil Marshall (que já tinha feito bonito em Dog Soldiers). Terrorzinho fodido! Nota 8,5.
O Mestre da Guilhotina Voadora (1975) é daqueles que te fazem urrar de prazer de tão excêntricos. Podia ser rebatizado para A Batalha dos Inválidos ou algo do tipo... em que outro filme você vai ver o herói sem um braço saindo na porrada com um vilão que é cego? O roteiro praticamente não importa, cedendo espaço para as lutas absurdas. É gente caminhando pelas paredes, se equilibrando em pontas de espadas e espichando as mãos como o Dhalsim do game Street Fighter II. E foi daqui que Tarantino tirou a cena de Gogo e sua arma mortal, numa das cenas mais afudê de Kill Bill. Podreira das boas. Nota 8,5.

Meu amigo Rodrigo resumiu bem Piratas do Caribe - O Baú da Morte na saída do Cine Figueiras: enquanto ação, é melhor(zinho) que o primeiro; já o roteiro parece ter sido escrito a quatro mãos por Renato Aragão e Ronaldo "Chespirito" Bolaños. Isso aí. Fora o enredo, o qual nem é bom lembrar, é dose suportar quase duas horas e meia de gente feia, suja e unilateral - tirando Orlando Bloom e Keira Knightley, todo mundo parece interpretar com uma colher de sopa de Nescau na boca. Tudo bem que dentistas eram raros na época, mas aquilo lá já é demais. Nota 6.
Eles tinham razão: Tomilidiones é mais diretor que ator. Três Enterros, seu début, revela um cineasta literalmente com as rédeas na mão e calejado na direção de atores. Muito além do que aquele rosto durango e cheirando a pêlo de cavalo mostra na telona. Vai pegar a câmera, homem! Nota 7,5.
Não percam os extras do DVD de Crime Delicado. Acompanhar de pertinho o sessentão Walter Carvalho, um dos maiores fotógrafos do cinema, explicando com minúcias o seu trabalho enquanto queima unzinho sentado à mesa de bar é algo que não tem preço. O filme, ainda mais imperdível, traz uma coleção de planos fixos per-fei-tos; numa seqüência em particular, toda desenrolada em cima do palco (aprende, Camurati), o Nachtergaele faz questão de reforçar quem é o melhor ator do Brasil. A dobradinha Beto Brant-Marco Ricca (de O Invasor) é para ficar de olho. Nota 8.
V de Vingança tem algumas boas idéias e impecáveis elenco e produção. Deve fazer bonito nas locadoras, mas de NOVO, de empolgante e inspirador como se pensava que fosse, traz pouco. Será que eu esperava um novo Matrix? Os colhões da fita são inegáveis, ainda mais nesses tempos de WTC: fala-se em bioterrorismo, escutas ilegais, campos de detenção... Assumidamente esquerdista, essa adaptação de Alan Moore é dirigida meio no susto pelo estreante James McTeigue, assistente de direção na trilogia de Neo; os Wachowski só assumiram o roteiro e a produção. Algumas ideologias impostas pelo roteiro são questionáveis (mostrar o terrorismo como única saída para fazer o bem, por exemplo), e certas seqüências pediam um pouco mais de intensidade, de sangue mesmo. O negócio é deixar o som no volume mais alto possível e se empanturrar com aquela pipoca do saquinho rosa. Nota 7,5.
Muito se falou na revolução que O Coronel e o Lobisomem provocaria nos efeitos digitais brazucas, que seria um divisor de águas e blablablá. Coisas da produtora Paula Lavigne. Qualquer Um Lobisomem Americano em Londres, feito num longínquo 1981, bate ele. O filme não é engraçado, romântico ou assustador. Diogo Vilela e sua barba Los Hermanos não incomodam tanto, mas Selton Mello e Ana Paula Arósio estragam a festa. Que vozinhas irritantes, e (agora me referindo só a ele) que desperdício de ator. Investir em efeitos não é mesmo coisa pra artista brazuca, mas de acertar o tom do elenco a gente entende, né? Quem não lembra do medão que dava quando pintava o professor Astromar em Roque Santeiro? Aproveitando a deixa, por que não incluíram na trilha aquela "mistérios da meia-noite, que voam longe..." no lugar de três ou quatro faixas do Caê, hein Paulinha?? Nota 5,5.
Quando o ator é realmente interessante, não dói tanto ter de agüentar filmezinho de doença da semana. Sem William H. Macy, talvez De Porta em Porta fosse mais um desses Supercines chororôs. Bom que o renegado astro de Magnólia e Boogie Nights faz questão de mostrar que papéis centrais são com ele mesmo. Nota 7,5.
Quem sente saudade da época de Antes Só do que Mal Acompanhado, Roxanne e Um Espírito Baixou em Mim não vai saná-la com A Garota da Vitrine. Pelo contrário, vai conhecer um Steve Martin sério e contido. Sua atuação não é digna do Oscar; já o roteiro, de sua autoria, pode ganhar alguns admiradores, em especial os fãzocas de Lost in Translation e Rushmore. Claire Danes e Jason Schwartzman me conquistaram de vez. Nota 7,5.
Mais óbvia, a nova A Pantera Cor de Rosa traz o Steve Martin que todos gostam: paspalhão, cara de pau e dono de uma incomparável expressão corporal. Aqui ele protagoniza muita piada vista e revista, mas eu já havia esquecido de ter dado duas gargalhadas, daquelas de ficar sem respirar, numa comédia. Mesmo não sendo a oitava maravilha, não é tão merdão quanto se pintou por aí. Nota 6,5.
Lá pelas tantas de Clube da Lua, Eduardo Blanco e Ricardo Darín estão confortavelmente sentados num sofá, assistindo à TV e discutindo sobre suas vidas amorosas. Papo vem, papo vai e aí o primeiro se vira e liberta uma sonora flatulência quase na cara do outro. Se o peido foi mesmo de verdade eu não sei, mas o ato ilustra bem essa primeira trinca concluída pelo diretor Juan José Campanella (fecham o pacote O Mesmo Amor, a Mesma Chuva e O Filho da Noiva): um esforço conjunto natural e que flui como poucos, cujo resultado vê-se na tela, integral, do trabalho com o cast à fotografia e a montagem. Gosto de pensar que o clima de confraternização visita o set todo dia. E as lágrimas também. Pensando seriamente em comprar uma camiseta da Argentina. Nota 8,5.
Só a idéia original já é merecedora de alguns prêmios. Totalmente Kubrick exibe o manjado carimbo de "baseado em fatos reais", com atrações extras para os cinéfilos. Trata-se da história real de Alan Conway (John Malkovich, a-do-ran-do a função); apesar de nada saber sobre o trabalho de Stanley Kubrick, ou mesmo ser parecido com ele, esse picaretão resolveu tocar o terror e convenceu uma série de pessoas que era o diretor durante as filmagens londrinas de seu canto de cisne, De Olhos Bem Fechados. O responsável por este Colour me Kubrick, Brian Cook, foi diretor-assistente do cineasta em Barry Lyndon e O Iluminado, entre outros. Deve ser por isso que a produção funciona ao também salpicar, aqui e ali, referências e brincadeiras com a obra do mestre. Cool. Nota 6,5.
Isto vai parecer meio gay, mãããns... vá lá: não consigo caber em mim de tanta alegria!! Porque acabo de assistir a um dos filmes da minha vida, A Sangue Frio (1967). Licencinha, mas não dá pra não encaixar uns adjetivos aqui.
O estilão imposto pelo diretor Richard Brooks em quase todos os setores garante à produção um frescor que não se vê em tudo que foi feito de 1970 para trás. O elenco é mais naturalista, já não traz aquela empostação que às vezes acaba distanciando as novas gerações dos clássicos. Crássico que é crássico, aqui entre nós, não precisa de astros. Tem é que durar. E isso, este aqui tem de montão. Impressionam os assassinos interpretados pelos desconhecidos Robert Blake e Scott Wilson (sarcasmo e maneirismos idênticos aos de Edward Norton). Quincy Jones fornece ao longa toda a eletricidade que ele necessita, com um tema musical jazzístico-fodástico - exatamente a trilha que eu imaginei praquelas festas descritas por Kerouac em On the Road. Quincy foi indicado ao Oscar, bem como a direção e o roteiro de Brooks e a fotografia em P&B do falecido Conrad L. Hall (de Beleza Americana). As curiosidades são muitas: o estúdio queria a dupla Paul Newman e Steve McQueen como protagonistas, mas Newman preferiu atuar em Rebeldia Indomável, enquanto McQueen optou por Bullitt; para dar autenticidade ao filme, Brooks rodou nas locações onde os fatos realmente aconteceram, incluindo a casa dos Clutters; e as fotos vistas nos quartos da casa são da verdadeira família.
Me diverti às vera com Os Produtores - mesmo com este meu, admito, pé atrás com remakes. Se o clássico de Mel Brooks era tão redondinho, pra quê dar a ele uma nova roupagem? Apresentá-lo às novas platéias? O DVD tá aí pra isso, não?! O legal é que todo mundo só pode ter ficado em estado de delírio durante as filmagens desta adaptação de Primavera para Hitler. Nathan Lane e o Ferris Broderick fazem uma parceria gozadíssima, e o elenco de apoio (tirando Uma Thurman e Will Ferrell, quase todo desconhecido) não fica atrás. Os números musicais não são o bicho; ao final quem reina é a metralhadora de gags deliciosamente idiotas. Por que o Casseta não é mais assim? Nota 7,5.
A simples presença de seres urbanos é capaz de provocar um revertério no cotidiano do interior, uma vez que alguns moradores, pacíficos e satisfeitos com suas vidinhas jecas, começam a se sentir inferiores em comparação aos visitantes. Eu, que moro em Rio Grande, nos confins do RS, já passei por situação semelhante. O jeitão provinciano comanda por aqui. As dificuldades impostas pelo baixo orçamento são visíveis, porém Retrato de Família (Junebug) é daqueles pequenos filmes com identidade própria e um coração que bate forte. Bom dizer que o seu charme é visível somente aos olhos dos espectadores mais pacientes; nada é resolvido com facilidade, porque a vida, minha gente, não é nada fácil. Destaque para as canções da trilha, todas assinadas pelo legalzão Yo La Tengo. Nota 7.
Vez que outra aparece um Profissionais do Crime por aqui. Gozado que Fulltime Killer virou cult na terra do sol nascente, onde todo mundo adora uma pancadaria coreografada. Não à toa, a produção estrelada pelo big star Andy Lau arrecadou não sei quantos milhões no Japão. Os brasileiros ainda preferem o bom e velho estilo hollywoodiano de se contar uma história de ação (leia-se 10 explosões + 5 tiroteios + 0 roteiro), e deve ser por isso que a gente nunca tinha ouvido falar desse filhotinho de John Woo. Amantes do cinema de referências têm aqui um compromisso inadiável: na mesma panela, são cozinhados Caçadores de Emoção, O Profissional de Luc Besson, quadrinhos, música pop e muito mais temperos. É por isso que eu digo... viva o DVD. Nota 7.
Tem uma cena em Six Feet Under, acho que na quarta temporada, em que os personagens estão curtindo Terra de Ninguém (1973) num desses madrugadões da TV. Que vontade me deu! Quando o achei num site de compras, comprei-o-o sem hesitar (thanks, Pimpidrigo). Tinha certeza que uma pérola me esperava. A maioria acha Malick pedante, pseudo-filósofo ou, pura e simplesmente, um "chato"; outros, como este que vos fala, conseguem admirar a beleza inusitada que ele impõe a barbaridades como casais de jovens assassinos, índios escalpelando ingleses com muita vontade e soldados ingênuos explodindo granadas dentro do bolso. Digo e repito: Terrence Malick é um profundo conhecedor da alma humana, e o cinema foi inventado para cineastas como ele. Nota 8,5.
Quem vê Kevin Spacey e Morgan Freeman posando de machões no cartaz de Edison - Poder e Corrupção garante que está prestes a assistir a um grande filme, com personagens complexos, cheios de traições e segredos. Nenhum dos astros, entretanto, é suficiente para compensar outra figura presente não apenas no cartaz original como em todo o filme: o pseudo-cantor Justin Timberlake. Até podia render um thriller policial bacaninha, não fosse a enfadonha presença do ex-Britney Spears e do roteiro, carente de continuidade e repleto de situações mal desenvolvidas. Saca só a viagem: um reporterzinho iniciante decide, da noite para o dia, acabar com a corrupção policial de sua cidade. Tudo isso em busca de nada menos que... o Pulitzer! Faz-me rir. Nota 3,5.
Produção da Globo Filmes é isso aí: quando o enredo ameaça sair dos trilhos, o negócio é ficar de olho nas participações de luxo: "ih, ó lá o Bial"; "bah, o careca marido da Marta da novela das oito!"; "o zolhudo do Zorra Total!"; ou "putz, mas o Francisco Milani não morreu?". Irma Vap - O Retorno, inspirado na bem-sucedida peça de mesmo nome, é bem isso. Um amontoado de astros e estrelas globais (ainda tem Arlete Salles, Marieta Severo, Diogo Vilella, Paulo Betti, Louise Cardoso...) derramando um punhado de frases feitas de dar dó, e que só servem para cumprir contratos. Nanini e Latorraca, competentes como sempre, arrancam suas gargalhadas; o problema é que a Carla Camurati parece um rinoceronte africano atrás das câmeras. O produto final acaba sendo um tele-teatro projetado em 35mm, um interminável teste para olhos, ouvidos e saúde mental. O artista brasileiro precisa, com urgência, saber diferenciar teatro, cinema e TV. Chega de Frankensteins! Nota 5.
Rodado no mesmo ano da oscarizada estréia Rebecca, Correspondente Estrangeiro (1940) foi o segundo trabalho de Hitchcock em Hollywood. O gorduchão não existia mesmo. Sem nos deixar respirar, o longa mostra um jornalista americano envolvido numa rede de espionagem na Europa, em pleno estouro da II Guerra, e é um claro chamado do cineasta pra que os EUA entrassem no conflito. O apelo marqueteiro é compensado pelas ótimas interpretações e o talento do cineasta. Tem um punhado de cenas antológicas, entre elas o assassinato de Van Meer (essa aí da foto), a eletrizante fuga do repórter no parapeito dos prédios e os 15 minutos finais, onde efeitos especiais surpreendentemente realistas reconstituem a queda de um avião (Roland Emmerich nenhum faria aquilo há 65 anos). Nota 8.
Provando que para ser 007 tem que ser no mínimo um bom ator, Pierce Brosnan deita e rola em O Matador. Sua indicação ao Globo de Ouro valeu mesmo a pena. O filme em si me lembrou muito Matador em Conflito, com John Cusack, A Máfia no Divã e tantos outros em que assassinos têm dificuldade de conviver com gente "normal". Mas a vontade em filmar da direção faz de The Matador um programa dos bons - e com identidade própria. Nota 7,5.
Carros foi a primeira sessão de cinema de Gustavo Caldeira Halal, uma minúscula criaturinha de 31 meses de idade. Corujices e álbuns de figurinhas à parte, a escolha não podia ser mais acertada - até porque tamos carecas de saber que a Pixar não faz filme ruim. O estúdio, depois de animar brinquedos, insetos, humanos e monstros gente boa, agora investe no objeto mais interligado ao homem industrializado. Assim, desfilam pela telona possantes máquinas de stock-car, caminhões de bombeiro engraçadíssimos, 'banheiras' antigonas, Porsches sensualíssimas... O enredo não precisava daquele efeitinho moral perto da conclusão, né, mas Pixar é sempre Pixar. São muitas as sacadas geniais, a começar por Paul Newman, aqui emprestando seu vozeirão a um carrinho aposentado. E quem diria que o melhor ator coadjuvante do ano seria um caminhão-guincho? Seu Gugu dormiu em cima dum balde de pipocas, para depois acordar e conferir os 15 minutos finais no meu colo. Pelo visto, adorou o esquema. P.S.: Só não levo na Xuxa. Nota 8.
Caraca! Como valeu essa angústia de dois ou três anos pelo terror coreano A Tale of Two Sisters!! Recenzinha lançado em disquinho digital, o verdadeiramente arrepiante e criativo Medo (eita, sr. tradutor!) mostra duas irmãs que acabam de sair do amarelinho e se mudam para a casa do pai & madrasta. As duas são inseparáveis, o pai ausente, e a madrasta, má como o inferno, vive perseguindo a irmã mais nova. A mais velha não suporta a situação, e o tempo fecha seguido entre ela e os coroas. Eis que fatos esquisitos começam a acontecer no casarão, e aí dá pra dizer: há tempos não se via uma fita de fantasmas e suspense psicológico tããããão paulada. Ringu, Ju-On, The Eye, Espíritos? Nenhum oriental mal-assombrado é páreo para este. Nasce um clássico, com visual inacreditável, sustos de verdade, personagens complexos, revelações mil e, o melhor de tudo: encagaçante do início ao fim. Aproveite enquanto o remake não vem. Nota 9.
Vez que outra, faço visitas àquela locadora que não vejo há uma era. É nessas horas que me deparo com antigüidades legais. Outras, nem tanto. Só fui ver Dublê de Corpo (1984) agorinha, depois de velho. Sou um puta fã de Carrie, Um Tiro na Noite, Vestida para Matar, Os Intocáveis e outros do De Palma... Mas esse aí envelheceu um bocado, e, vão me desculpar, não deu pra engolir todas aquelas reviravoltas mirabolantes. Já a Melanie Griffith... Nota 5,5.
O filhote da Globo Filmes A Máquina é aquele tudo-ao-mesmo-tempo-agora já visto em, para ficarmos em dois exemplos recentes, Domino e Moulin Rouge (OK, gosto deste último). Quer ser moderninho mas não passa de um afetadíssimo samba do crioulo doido, fazendo dodói na cabeça do vivente com sua mescla de videoclipe demodé, Teatro do Bebé, programa de auditório a la João Kleber, duvidosos efeitos artesanais e a rebimboca da parafuseta. Pô, e eu amo tanto Lázaro Ramos, Wagner Moura, Paulo Autran, Walter Carvalho, Chico Buarque... Era tanta gente boa envolvida que a decepção com a fita doeu ainda mais. Foda mesmo é a (falta de) direção. João Falcão, filho, coragem não te falta. Mas como diria o nosso poeta Frank Jorge, um pouco de talento não faz mal a ninguém. Nota 5,5.
Vi Nove Rainhas pela terceira vez. Novamente dublado, no SBT. R.I.P., caro Bielinsky. E... gracias. Nota 9.
Pelas mãos do mesmo Stephen Wooley do legalzinho Backbeat, Stoned - A História Secreta dos Rolling Stones parece ser o mais recente capítulo da maior batalha do rock (Beatles x Stones, oras). A atração-mor fica com a reconstituição de época, em que brilham cenários, figurinos e penteados muito freaks. A velha trinca sexo, drogas e rock'n'roll é respeitada - mesmo que a trilha não tenha nada de Stones e as drogas sejam mostradas meio de canto. Já o sexo, ainda que mole e balançando, vem em grandes quantidades; nunca se viu tanto nu frontal numa produção (relativamente) mainstream. Nota 6,5.
De vez em quando pego umas fotos no Adoro Cinema. Sitezinho bem aceitável, traz também cartazes, fichas técnicas, notas de produção e cotação dos leitores. Pois não é que na seção dedicada a A Casa dos 1000 Corpos há só duas notas: um zero e... um 10! Nada poderia ser mais próximo da verdade. Ame ou odeie, Rob Zombie respira ares trashes como poucos. A seqüência Rejeitados pelo Diabo é muito mais bem-acabada e talicoisa, só não traz a alma tão podre quanto a desse primeiro. Tem uma ceninha ao som de "Now I Wanna Sniff Some Glue", dos Ramones, que não tá pra brincadeira. Nota 7.
Estranhamente, o novo Bergman não chegou ao Brasil e vai direto para DVD pela mesma Sony que preferiu não exibi-lo na tela grande. Saraband é fantástico. Os extras são um es-pe-tá-cu-lo à parte, mostrando o processo criativo de um dos pouquíssimos cineastas mitológicos ainda vivos. Que outro filme tem personagens centrais à beira dos 90 anos? E PELADOS? Nota 8.
Entre um Garfield 2 e um O Filho do Máskara, Bob Hoskins se dá ao respeito de participar de coisas legais como Sra. Henderson Apresenta. Excelente ator, esse. Ao lado de uma antagonista do porte de Judi Dench, o homem brilha como nunca. Nota 7,5.
Alta Tensão é o nome de dois filmes. Um deles, com Mel Gibson e Goldie Hawn, de vez em quando estampa a Sessão da Tarde e é uma aventurinha bem leve, descontraída, tipo alguns sopapos e as perseguições de sempre. Mas Alta Tensão é também como foi batizado por aqui Haute Tension, estréia do diretor Alexandre Aja (do novo The Hills Have Eyes) e um festival de grosserias em forma de fita de horror francesa. Ao longo de 91 minutos, somos submetidos a decapitações no melhor estilo Irreversível (sem cortes na edição), motosserras arrebentando caixas torácicas, crianças e cachorros em execução sumária, pedaços de pau enrolados em arame farpado fazendo bonito e a participação especial de uma navalha, capaz de te tirar a vontade de ir ao barbeiro este mês. Tudo é filmado com alto grau de terror, violência e morte. Liberdade criativa é isso aí; pobrezinhos daqueles que ainda se espantam com coisas pretensamente brutas como Jogos Mortais. O já citado Mel "torturador de Jesus" Gibson que deve ter se arregalado com tanto sangue. Nota 7,5.
Numa de suas melhores músicas, o Primal Scream vocifera "kill all hippies!". Eu não iria tão longe a ponto de exterminá-los da face da terra, mas não há quem não compreenda o porquê da letra; esses chatonildos são mesmo a praga da globalização-retrô. Mesmo assim, confesso que foi uma experiência sensorial conferir aquele final de Hair, ao som de "Let the Sunshine In". Cá entre nós, qualquer forma de arte que ridicularize militares e dê força para a desobediência civil merece aplausos. Milos Forman é um dos meus deuses do cinema. Só não venham me forçar a ficar viajando nessa onda hippie-fashion. Nota 8,5.