2/25/2007

Dia D



"D" de... dá-lhe.

No fone: Joanna Newsom - "The Book of Right-On"

1/22/2007

Postzão - Parte II


Fico abismado com o Almodóvar. De Carne Trêmula até Volver (2006), todos os seus filhinhos são lindos de morrer. O modo como ele consegue isentá-los de moralismos é objeto de estudo por qualquer um desses roteiristinhas espertos de Hollywood. Cada crime é imediatamente perdoado pelo público, que se torna cúmplice das personagens. Porque elas são queridas, queridas até não mais poder. Não há cineasta no mundo que filme tão bem as mulheres. Ele passa a mão na cabeça delas, leva pra passear, compra presentinho, alimenta, dá banho e põe pra nanar. Um paizão. Penélope que o diga! Nota 9.

Venho de uma geração que aprendeu a amar o cinema americano graças a diretores como Coppola, Spielberg, Scorsese, David Lynch. Por isso mesmo, me esforço horrores e não consigo enxergar em Os Infiltrados (2006) o filmaço-machão-ultra-do-caralho pelo qual cruzei os dedos. Era pra ser o retorno do nosso Marty ao mundo do crime, com o auxílio do superelenco dos sonhos de qualquer um. Mas até O Aviador me pareceu mais sofisticado, satisfatório, uniforme. Conflitos Internos, o original chinês, também. Óbvio que o cabeção instalado na minha frente durante TODA a sessão muito contribuiu para a decepção. E acreditem, me dói um bocado usar "Scorsese" e "decepção" na mesma frase. Se bem que... E o Jack de altos papos enquanto segura uma mão decepada? E todos aqueles 300 raivosos "fucks" ditos ao longo da projeção? E aquele final sequíssimo e sangrento a um só tempo? O grande erro de Scorsese parece ser mesmo a idade - só não queiram compará-lo ao picareta que virou, por exemplo, o Coppola. Nota 8.

O Grande Truque (2006) é a pipoca pensante que Christopher Nolan nos devia desde Amnésia. Batman Begins não me enganou, Insônia não foi tudo isso. Já este foi BEM bonzinho. Quando será que teremos outra chance de ver Mr. David Bowie numa telona de cinema, hã? Nota 8.

Existe uma regra do cinema de ação que é a seguinte: jamais deixe a cena mais empolgante pro início. A seqüência que abre Cassino Royale (2006) prometia redefinir o cinema de ação. Mas Martin Campbell põe tudo por água abaixo ao ambientar quase todo o filme dentro da jogatina. Confesso que não entendo lhufas de carteado, e nem faço questão. É um mistério como os produtores da série 007 chegaram tão longe com a franquia. Diferente de Missão: Impossível e dos Jason Bourne, que se superam ao escolher quem vai dirigir suas aventuras, os caras só me contratam cabeças-de-bagre. Daniel Craig é um baita Bond, mas chamar Campbell de cineasta é forçar a barra. O homem é um pau mandado, um peão com uma câmera na mão e poucas idéias na cabeça. Não dá para discordar que filme de 007 é divertido mesmo quando cansa, mas eu queria era porrada. Fazer o quê. Nota 7.

Na contramão do Bond, Adrenalina (2006) entrega o nível já em seu cartaz: "acesse o site e concorra a um Playstation 2". Parece Comando para Matar com câmeras modernetes. É ação assumida e sem-vergonha, uma pauleirinha MTV curiosamente bem dosada e politicamente incorretíssima (só tem filho da puta em cena; Statham cheira todas, dá pau na Brigada e ainda chama um imigrante de Al-Qaeda). Nunca um título foi tão adequado. Nota 7.

O Diabo Veste Prada (2006) foi eleito um dos dez melhores longas do ano pelo National Board of Review. Tirando o mau gosto, taí a melhor piada do filme. Nota 6,5.

Some Alan Arkin, e Pequena Miss Sunshine (2006) perde boa parte de sua graça. Mas a sensação de ouvir os acordes de "Chicago", de Sufjan Stevens, no volume máximo a bordo de uma Kombi amarela com tanta gente legal é uma dessas mágicas que o cinema ainda permite. Nota 8.

Falta nonsense a Por Água Abaixo (2006). Fosse mais maluquete, teríamos uma grande animação aí. Nota 7,5.

Memórias de um Assassino (2004) representa uma espécie de cinema que os americanos um dia souberam fazer direitinho. O thriller coreano dá uma refrescada legal no gênero, até porque ele ignora a desgastada fórmula do suspense policial ianque, aqueles em que a gente não consegue entender como é que o Denzel Washington chega até a casa do criminoso com tão poucas pistas. No interior da Coréia do Sul, dois policiais violentos não conseguem solucionar um caso de serial killer. A bananice é tamanha, que faz com que eles recebam o auxílio de um investigador da capital. Este passa a mudar sua personalidade pacífica conforme mais corpos vão surgindo e o criminoso permanece incógnito. Enquanto isso a violência policial come solta, com direito a voadoras no pescoço de meia-dúzia de suspeitos e uma série de torturas realistas. Tenso, envolvente e às vezes assustador, é praticamente um Seven em ritmo de filme de arte, para mostrar (ou lembrar) a Hollywood como se faz. Corre para a locadora, pombas. Nota 8,5.

Christine - O Carro Assassino (1983) tem um subtítulo estraga-prazeres que ainda apavora muita gente. Não conta o fato dele ser dirigido por John Carpenter e adaptado de um livro de Stephen King? Podem até dizer que o enredo não tem a profundidade dum Crash da vida (tô falando no do Cronenberg), mas que rende uma boa discussão sobre o relacionamento sexual homem-máquina, isso rende. E algumas cenas são de foder de tão bem filmadas, coisa para se analisar em faculdades de Cinema. No papel do punheteiro apaixonado por um Plymouth 1958 vermelho está Keith Gordon (Vestida para Matar, All That Jazz), espécie de Cillian Murphy de 1980 e poucos. Ele virou diretor razoável de uns anos para cá, Noites Calmas e Crimes de um Detetive são dele. Nota 7,5.

E se você, menina-moça, desse de cara com um pedófilo após marcar um encontro pelo MSN? O suspense indie Menina Má.com (2005) aborda a delicada questão, mas vai muito além do habitual jogo de gato-e-rato que a gente vê todo dia. O espectador, depois de submetido a duas horas de violência, segredos e reviravoltas, chega a um ponto em que não sabe distinguir o vilão do mocinho. Esta é apenas uma das qualidades da estréia do diretor David Slade. Aos incautos, bom alertar que a violência é 18 anos; tem uma seqüência envolvendo uma faca e um saco de gelo que não vai sair tão cedo da cabeça de muita gente, particularmente do público masculino. É uma das grandes cenas de Ellen Page, uma mini-Suzane Richthofen que atua como gente grande e consegue o que muita atriz veterana jamais aprendeu: falar com os olhos. Claro que nem tudo é perfeito, há alguma forçação de barra e o roteiro encontra umas pedrinhas aqui e ali. Ainda assim, um produto muito mais inteligente que seu bisonho título brasileiro poderia supor ("hard candy" é uma gíria gringa para "ninfetinha"). Nota 7,5.

Nunca tinha me acontecido isso. Estava eu largadão no sofá de dois lugares lá de casa, vendo o tão sonhado DVDzinho de Caché (2005), tipo raro que exige da gente, nos respeita e enaltece o intelecto. Pois é nesse ambiente caseiro e solitário que se encontrava este que vos fala, longe da família e deitado com as pernas espichadas, imerso por completo naquelas imagens hipnóticas, fodidaaaaaças, e aí acontece uma coisa no filme que me faz saltar e sentar no braço do sofá com os olhos arregalados e o coração a milaço. A surpresa é total. Cena seca, socão na boca do estômago, disparado a melhor do ano. Aproveite bem a sessão, porque é perda de tempo tentar antecipar as verdades da trama. Certamente tu vais errar. Haneke é gênio sim, e quem discorda que vá sentar numa jaca. Nota 9,5.

Tudo pela Fama (2005) tinha tudo para ser uma comédia legalzinha: a dupla de Um Grande Garoto (Hugh Grant e o diretor Paul Weitz) a serviço de uma trama que tira sarro da política norte-americana e desses programas de calouros que eu abomino com todas as minhas forças, tipo "Fama" ou "Ídolos". Mas tudo é tão forçado, os personagens são tão pé-no-saco, muita piada fica só na intenção, que os bocejos são inveitáveis. A história é centrada na crise nervosa que abate o presidente americano (Quaid, no papel que é um alter-ego de Bush). Para reanimá-lo e fazê-lo voltar aos trilhos, seu assessor o escala como um dos jurados do reality-show mais visto da América, apresentado por Grant. Entre os concorrentes ao título de nova estrela pop, estão uma jovem caipira maluquete e um árabe com planos terroristas. Não é um desastre completo, mas deixa a sensação de que podia ter rendido bem mais. Badly Drawn Boy também fez falta na trilha, por sinal uma bosta. Nota 5,5.

Em Premonição 3 (2006), a única cena de morte que se salva é a das duas patricinhas fazendo bronzeamento artificial ao som de "Love Rollercoaster". Tirando isso temos um festival de bocejos pra ninguém botar defeito, sem o suspense do primeiro ou o gore do segundo. O que mais me deixa apreensivo é a boa bilheteria, que deve dar sinal verde pruma nova seqüência. Nota 5.

Em sua estréia atrás das câmeras, o eterno futuro astro Andy Garcia jogou um material riquíssimo direto na latrina. A Cidade Perdida (2005) do título é a Havana dos anos 50, onde proprietário de um famoso clube noturno tem de conviver com a revolução cubana até seu exílio nos EUA. O problema é que Garcia é um cineasta capenga; são ridículas as suas tentativas de imprimir ares épicos numa historinha tão enredada quanto mal conduzida. O jeito com que ele mostra Che Guevara é ridiculamente caricatural, pra não dizer pior. Garcia ainda consegue coisas impensáveis, como tornar Bill Murray um ator desagradável e dar a Dustin Hoffman apenas cinco minutos em cena! Isso que o filme tem mais de duas horas e vinte... O que fica é uma propaganda anti-Fidel com seridade histórica nula e que não deve ter agradado nem aos cubanos de Miami. Que venha logo o Che de Steven Soderbergh, este sim, um diretor que sabe o que faz. Nota 4.

Quanta má vontade todas essas críticas negativas a Estrela Solitária (2005). Certamente é um Wim Wenders menor, mas não tão pequeninho assim. Nota 6,5.

Acostumado àqueles documentários fofinhos da National Geographic em que zebras, elefantes, leõezinhos e o homem convivem numa nice, em pleno estado de espírito? Pois sua visão do mundo selvagem está a um passo de mudar. Antes que alguém pense que O Homem-Urso (2005) é o novo super-herói da parada, é bom esclarecer que ele também é um documentário. Dos mais realistas. Na verdade, um incômodo e fascinante retrato de uma tragédia. O objeto de estudo do veterano diretor Werner Herzog é o seguinte: em outubro de 2003, o ativista norte-americano Timothy Treadwell, que durante 13 verões manteve o hábito de acampar em uma reserva florestal do Alasca habitada por ursos pardos a fim de “protegê-los”, foi morto e devorado, ao lado da namorada, por um dos animais aos quais devotava sua vida. A trajetória de Treadwell é narrada a partir das fitas de vídeo que o próprio gravou no Alasca (mais de 500 horas de material). O longa é complementado por entrevistas de pessoas que eram próximas ao ecologista; aos poucos descobre-se que ele era ator frustrado, alcoólatra e sobrevivente de uma overdose, para muitos um louco. Daí sua opção pelo isolamento. O interesse do diretor não é pela questão ecológica da coisa, e que bom para nós. Não perca, por favor. Nota 8.

Ser um pai em férias é se sujeitar a ver Dumbo (1942) duas vezes num mesmo dia. Ninguém reclamou. Nota 10.

A Dama e o Vagabundo (1955) também. Nota 10.

E Branca de Neve e os Sete Anões (1937). Nota 10.

E Peter Pan (1950). Nota 10.

E Os Sem-Floresta (2006). Nota 7,5.

E Carros (2006). Nota 8.

E Pinóquio (1940). E que filme. Os relógios artesanais do Gepeto, a primeira aparição da Fada Madrinha, Pinóquio sendo engolido pela baleia, as crianças fumando no parque de diversões e depois se transformando em burros... É muito para minha cabeça. Ainda o meu Disney preferido. Nota 10.

Faster, Pussycat! Kill! Kill! (1965) é um desses cults B que só vêem a luz do dia anos depois. A estrela principal deste clássico da bizarrice fílmica é uma tal Tura Satana, que colhe os dividendos até hoje pelo papel da stripper karateca Varla. Ela faz questão de mostrar mais suas curvas do que a própria capacidade de atuar. Bom mesmo é o filme, a marginália em estado bruto, destruindo com estereótipos do american-way-of-life de maneira exemplar. Para o falecido diretor Russ Meyer, os homens são vítimas e as mulheres, perversas e perigosas, comandam. Depois de redescoberto por Tarantino, que pendurou pôsteres da produção nos sets de Pulp Fiction, Faster, Pussycat passou a figurar como um dos mais procurados no Emule, Kazaa e similares, teve sua canção-tema regravada pelos Cramps, até foi satirizado pelos Simpsons. Por incrível que pareça, a fita nunca foi distribuída no Brasil. Deve ter sido até melhor... imagine só a tradução! Nota 8,5.

Steve Martin tem um estilo único de humor. Sua atuação em O Panaca (1979) foi lembrada entre as 100 melhores da história por uma recente pesquisa da revista Premiere. Quem vê o filme sabe que a votação não foi exagero. Nota 7,5.

Isabelle Adjani, linda de morrer e uma atriz que sempre interessa, é um desses presentes dos deuses do cinema. Sua grande cena em Possessão (1981, filme que lhe deu o prêmio de atriz em Cannes) acontece numa estação de metrô completamente vazia e escura. Num plano-seqüência magistral, a câmera acompanha o ápice da crise de sua personagem, que inclui espasmos e boas doses de sangue misturando-se ao vômito esbranquiçado da moça. O filme do polonês Andrzej Zulawski é demente como um bom Cronenberg. Tem terror, arte, drama, surrealismo. Tem Muro de Berlim, Sam Neill ainda usando fraldas, criaturas nojentésimas criadas pelo mesmo Carlo Rambaldi de Alien e E.T. Possession causou furor nos festivais de cinema mundo afora (também venceu o prêmio da crítica na Mostra de São Paulo) ao abordar a estranha relação adúltera de uma dona de casa com uma criatura horrenda. São duas horas que parecem se arrastar, e ainda um final deprimente que não entendi até agora. Fortíssimo. Nota 7,5.

Assombração foi uma das sessões bizarras de 2006. Começa como um terror oriental com meninas cabeludas, elevadores e telefonemas com gemidos roucos, e depois descamba para uma fantasia ao melhor estilo Myiazaki-História Sem Fim. Legalzinho, tem visual bem cuidado e boas sacadas de roteiro. Nada memorável, pois. Nota 6.

9 Canções (2004) tem sexo e rock'n'roll saindo pelos tubos. As drogas ficam a cargo do espectador. Nota 6,5.

"Spoofs" são aquele tipo de comédia escrachada que tira um sarro em cima de filmes famosos, como Todo Mundo em Pânico. Foi deste filme que reuniram os roteiristas para, de olho nas gordas bilheterias, realizar um novo festival de bobagens. Uma Comédia Nada Romântica (2006), entretanto, não contém um décimo das gargalhadas de qualquer capítulo da série que deu novo fôlego ao besteirol. As piadas são mais rasteiras e estúpidas que qualquer quadro da Praça É Nossa, e o nível de aberrações ultrapassa o limite do tolerável. A não ser que você ache graça em ver uma mulher balançando os peitos até caírem para as costas, um sujeito colhendo sêmen para ter a aprovação do sogro, um outro com oito mamilos, gatos cagando na privada... Quer dar umas boas risadas? Fique com o Lasier tomando choque no YouTube ("aqui do lado, Pederneiras"). Nota 2.

Se o leitor não esteve em Marte nas últimas semanas, deve ter ouvido falar de um filme americano chamado Turistas. Ele vem causando polêmica por tratar o Brasil como um país maléfico, com uma selva em cada esquina e um forte esquema de mercado negro de órgãos. Mas não é que outras produções recentes nos zoaram até o fim e ninguém deu bola? Caso de 12 Horas Até o Amanhecer (2005), que reuniu elenco internacional em São Paulo para contar uma chocha e estereotipada história policial. Na trama, pai e filho nova-iorquinos donos de um bordel na Boca do Lixo se vêem às voltas de traficantes africanos e uma maleta de cocaína. O submundo paulista é retratado da forma mais ridícula possível, com direito a policiais bobocas e videntes que não erram uma. O elenco também não ajuda: depois de uma seqüência de bons papéis, Brendan Fraser nos lembra que pode ser o pior ator da Terra; a cena em que o Nachtergaele (que faz um travesti) leva chumbo no meio da rua é tragicômica; até Márcio Garcia aparece do nada, como um barman. Para coroar o "programão", o português falado pelos gringos é uma vergonha. Veto neles! Nota 3,5.

Revi Donnie Darko (2001). Cresceu muito desde que o vi pela primeira vez. Nota 9.

Doente mesmo é Escravas da Vaidade (2005). É de surpreender a elegância com que o diretor de Hong Kong Fruit Chan aborda um tema dos mais escabrosos: o canibalismo. Para reconquistar o corpinho sarado e conseqüentemente a atenção do marido, uma atriz veterana recorre aos serviços de uma espécie de curandeira que tem um segredo culinário de rejuvenescimento. Ela faz bolinhos utilizando como ingrediente... fetos humanos! Não se preocupe, que tudo (bem...quase tudo) é feito de forma sutil e com uma leve pitada de humor negro. E as duas atrizes são muito boas. Nota 7,5.

A idéia de Bandidas (2006) não era tão ruim: convocar as duas latinas mais calientes de Hollywood para estrelar uma comédia ambientada no Velho Oeste. Infelizmente, de quente o filme só tem a dupla central e o cenário árido da Cidade do México, onde elas encarnam assaltantes de banco. Porque nada mais se salva entre os escombros dessa verdadeira bomba. As piadas são primárias, com direito a gente conversando com animais, piruetas mais fake que todo As Panteras Detonando, e Salma e Penélope em briguinhas infantis, arrancando-se os cabelos e tudo. Do inexistente timing cômico às atuações medíocres de cada integrante do elenco, passando pelos cenários de Beto Carrero World, dá para ver que os diretores nada manjam de cinema. Há bigodes falsos e roupas idem que fariam bonito num daqueles filmes 80's dos Trapalhões. A trilha sonora faz um esforço danado em homenagear os westerns das antigas, mas acaba soando no mínimo ridícula. Se o trailer já assustava, vendo a obra pronta o fedor é insuportável. Corre, muchacho! Nota 3.

A Identidade Bourne (2002) na Tela Quente. Por que não? Nota 7,5.

Tudo que é demais enjoa. No Todo Mundo em Pânico 4 (2006) as piadas já não fazem rir tanto. Os Scary Movies são como os livrinhos Onde Está Wally?, em que o espectador fica tentando achar qual filme está sendo gozado desta vez. Já vamos adiantando alguns deles: Guerra dos Mundos, O Grito, Menina de Ouro, Jogos Mortais, A Vila e O Segredo de Brokeback Mountain. Você vai rir, claro, mas sabe que já viu muito melhor. De novo a direção ficou por conta de David Zucker - cineasta e roteirista responsável por algumas das comédias mais populares dos anos 80, como Corra que a Polícia Vem Aí e Apertem os Cintos, o Piloto Sumiu. Pena que o véio anda meio enferrujado. Nota 5,5.

Demi Moore jurava de pé junto que daria a volta por cima com o já citado ali em cima As Panteras Detonando. Ressurgiu mais linda que nunca, saradona, bronzeada e necessária, depois de anos ausente da telona. O filme acabou sendo esquecido rapidinho, e a ex de Bruce Willis foi na carona. Protegida por um Anjo (2006), um suspense de quinta, nem chegou a ser lançado nos cinemas dos EUA, indo direto para o DVD. Os americanos fizeram muito bem. Demi continua muito boa (não como atriz, claro), mas a fita é um arremedo de várias idéias vistas em outros filmes. Os cenários são legais, exibindo praias solitárias onde há muito vento, chuva e cavalos selvagens. É para esse ambiente que vai uma escritora vítima de um trauma pessoal, o filho pequeno que morre afogado. Ela tenta completar um novo livro e passa a se interessar pelo rapaz que cuida do farol, até que... Bem, espere quando passar no Supercine. Nota 4,5.

No fone: Death Cab for Cutie - "What Sarah Said"

1/15/2007

Especial Fim de Ano

Início de 2007, hora de tentar entender o que aconteceu no ano que acabou também no cinema. Foram 264 filmes vistos nos últimos doze meses. Uns novos (sessões em tela grande foram só 26, que fiasco), outros nem tanto mas que tinham de dar as caras mais cedo ou mais tarde (Pi, Contra a Parede, Ghost World), reprises diversas (viva a Disney!) e tantos clássicos finalmente descobertos (Cantando na Chuva, O Que Terá Acontecido a Baby Jane?, A Sangue Frio, Hair, The Killer, Morangos Silvestres).
Claro que perdi muita coisa. Fitas badaladas como O Labirinto do Fauno, O Céu de Suely, 2046, Fonte da Vida, A Dama na Água, A Última Noite, Filhos da Esperança e Eu, Você e Todos Nós não chegaram até mim, nem eu pude ir até elas. Fazer o quê.
Mas foi um baita ano, sem dúvida. Três fatores logo chamam atenção na relação abaixo, que traz os meus preferidos no ano. Em primeiro lugar, a grande presença de americanos (oito produções em dez), apenas dois europeus (Volver e Caché) e a completa ausência de filmes nacionais (como teve coisa ruim, hein?). Depois, a força dos veteranos: Spielberg, Scorsese, Almodóvar, Malick... 2006 foi mais dos mestres que das revelações. Por fim, a lista é marcada pela discussão de temas que ainda vão dar o que falar, seja o conflito Israel x Palestina (Munique), homossexualidade (Brokeback Mountain) ou a falta de ética no jornalismo (Boa Noite e Boa Sorte). Foram pequenas, mas significativas mudanças no cinema. Sobretudo no norte-americano: o grande vencedor do Oscar (Crash), por exemplo, promoveu um ataque frontal ao racismo.
Que venham discussões ainda mais acirradas, obras ainda mais provocantes. Porque o cinema, mais do que qualquer outra manifestação artística, permanece como o mais eficaz espelho da sociedade.

DEZ FILMES, DEZ CENAS


1. O Segredo de Brokeback Mountain (Brokeback Mountain, EUA)
A explosão de Michelle Williams.

2. Caché (França)
Dois homens conversam. Um deles tira uma navalha do bolso e mostra à platéia o significado de "harakiri".


3. Munique (Munich, EUA)
Eric Bana ouve a voz da filha pela primeira vez, ao telefone, e tem uma crise de choro.


4. Volver (Espanha)
Penélope Cruz acaba de assassinar alguém na cozinha de casa. Eis que bate à porta seu vizinho. Ao perceber a orelha da moça suja de sangue, ele questiona o que houve. "Coisas de mulher", responde ela, na maior naturalidade.


5. Boa Noite e Boa Sorte (Good Night and Good Luck, EUA)
O discurso final de David Strathairn, que todo jornalista deveria ter enquadrado na parede. Do ladinho do diploma.



6. Vôo United 93 (United 93, EUA)
A queda.


7. Viagem Maldita (The Hills Have Eyes, EUA)
O ataque dos mutantes estupradores ao trailer, enquanto alguém lá fora é tostado vivo numa árvore.



8. O Novo Mundo
(The New World, EUA)
Colin Farrel e a indiazinha descobrem-se às margens de um riacho. Ele lhe passa as mãos nos cabelos, ela lhe entrega um punhado de conchinhas. Por que o cinema romântico não é sempre assim?


9. A Lula e a Baleia (The Squid and the Whale, EUA)
Em pleno 1986, um casal vai ao cinema e não sabe se assiste a Veludo Azul ou Short Circuit - O Incrível Robô.


10. Os Infiltrados (The Departed, EUA)
Jack Nicholson leva duas mulheres para a cama, joga um punhado de pó em cima de uma delas e dispara, com os olhos num brilhinho só: "Agora você só se levanta quando estiver dormente". Graaaaaaande Jack.


FALTOU LUGAR:

11. O Homem Urso (Grizzly Man, Alemanha)
12. Crime Delicado (Brasil)
13. Clube da Lua (Luna de Avellaneda, Argentina)
14. Pequena Miss Sunshine (Little Miss Sunshine, EUA)
15. Abismo do Medo (The Descent, Inglaterra)
16. Alta Tensão (Haute Tension, França)
17. Memórias de um Assassino (Memories of Murder/ Salinui Chueok, Coréia do Sul)
18. O Grande Truque (The Prestige, EUA)
19. Rejeitados pelo Diabo (The Devil's Rejects, EUA)
20. Carros (Cars, EUA)
21. Paradise Now (Palestina/França/Alemanha/ Holanda/Israel)
22. A Proposta (The Proposition, Austrália)
23. Medo (A Tale of Two Sisters, Coréia do Sul)
24. Dália Negra (Black Dahlia, EUA)
25. Pesadelo Mortal (Cigarette Burns, EUA)
26. Marcas do Terror (Imprint, EUA/Japão)
27. Saraband (Suécia)
28. Capote (EUA)
29. A Marcha dos Pingüins (Le Marche del Empereuer, França)
30. Hooligans (EUA/Inglaterra)

OS PIORES

1. Gatão de Meia Idade (Brasil): Uma vergonha esta adaptação das tirinhas de Miguel Paiva. Os ares são daquelas pornochanchadas com Nuno Leal Maia, e nenhuma piada é digna de um sorriso amarelo que seja. Pra piorar, todas as mulheres são tratadas como um rolo de papel higiênico. Dói no dente só de pensar.
2. Uma Comédia Nada Romântica (Scary Movie, EUA): Uma comédia nada engraçada.
3. Aeon Flux (EUA): Deus do céu, o que é aquela mulher com as pernas de curupira?
4. Ultravioleta (Ultraviolet, EUA): Aeon Flux - Parte II.
5. Edison - Poder e Corrupção (Edison, EUA): Kevin Spacey e Morgan Freeman coadjuvando Justin Timberlake? Contas atrasadas, só pode ser.
6. Doom (EUA): Mais artificial que qualquer jogo de Atari.
7. A Névoa (The Fog, EUA): Outro remake imbecil, incapaz de meter medo na criança mais impressionável.
8. Bandidas (EUA): Um neo-western estrelado por duas latinas que passam o tempo inteiro se puxando os cabelos? Não, obrigado.
9. Instinto Selvagem 2 (Basic Instinct II, EUA): Não precisava, né dona Sharon?
10. O Código Da Vinci (The Da Vinci Code, EUA): Um novo recorde para o Guinness: o melhor elenco a fazer parte de um filme ruim.

FALTOU LUGAR:

11. 12 Horas Até o Amanhecer
12. Caçadores de Mentes
13. A Máquina
14. As Loucuras de Dick e Jane
15. O Coronel e o Lobisomem
16. A Profecia
17. Crash - No Limite
18. Irma Vap - O Retorno
19. Oliver Twist
20. Tudo pela Fama

11/28/2006

Postzão - Parte I

Queridões, eis um primeiro balanço de minhas vacaciones:

Sua vida anda meio sem-graça? Não agüenta mais a mulher enchendo o saco, o chefe besta torrando a paciência, o time que sempre abre as pernas na reta final do campeonato? Pois seus problemas acabaram! Pegue ***alerta! tradução afasta incautos! alerta!*** Como Enlouquecer seu Chefe (1999) e transborde de felicidade. É nada mais, nada menos que a estréia de Mike Judge em celulóide, e olha, descrever o que o pai de Beavis & Butthead fez aqui não é fácil.
O ponto de partida é de uma Sessão da Tarde tipo Quero Ser Grande ou O Mentiroso: rapaz que trabalha numa firma de informática é vítima de um feitiço que o impede de se estressar. Ao contrário do filme do Jim Carrey, que se concentrava na relação pai-filho, o esquema aqui é espinafrar o sistema trabalhista. Logo que começa a falar umas verdades para seus empregadores sem se ligar, o maluco estranhamente cai nas graças deles com sua franqueza. O ritmo das piadas que seguem é insano. O estilo de humor atende a todos os gostos: tem sutileza, humor negro, sarcasmo, humor físico, incorreção política... Impossível não gargalhar, e olha que eu exijo muito de uma comédia. O que são aqueles diálogos, Jesus-Maria-e-José? Certo que ninguém da Academia conferiu, senão era Oscar de roteiro na certa.
Mais: tudo isso protagonizado por um time de atores que parece organizar um churras toda sexta à noite, tamanha a empatia entre eles. Office Space gruda na memória porque todos, eu disse todos os personagens são gozados e interessantes. O vizinho do protagonista, por exemplo, é um pedreiro cabeludo, preguiçoso, taradão e com voz de negão blueseiro, que ouve tudo por trás da parede - e faz questão de comunicar sempre que surge uma gostosa de biquíni na TV. Outras figurinhas são um árabe com tendências terroristas (mas baita cagão) e um hacker nerdzaço, daqueles que sabem tudo que é letra de rap, mas que fecham o vidro do carro sempre que pinta neguinho por perto. Nem a gostosa da Jennifer Aniston consegue embatumar o bolo, até porque aqui ela realiza o sonho de todos nós: esfregar o dedo médio na cara do chefe. Vi-o há quase dois meses, e desde então o filme só cresceu na minha cachola. Pode arriscar, que eu agarântio! Nota 9.

Legal que a carreira de Uma Thurman decolou depois de Kill Bill. Torço por essa guria. Não fosse Tarantino, a moça dos dedos compridos jamais conseguiria trampos de evidência em Terapia do Amor (2005) e Minha Super Ex-Namorada. Quer dizer então que tua tarefa agora é ressuscitar o Kurt Russell, hein, Quentin? Nota 6,5.

Fernando Meirelles anunciou que vai adaptar Saramago. Se depender desse currículo de ouro - Domésticas, Cidade de Deus e O Jardineiro Fiel (2005) - vêm maravilhas por aí. Nota 9.

Quase nunca vou na prateleira do Romance, até porque os energúmenos lá da locadora acomodam ali Destino Insólito, Showbar e por aí vai. Quando vi Verão de 42 (1972), então, dei uma chance. Filmezinho bonito, rapaz. Nota 8.

Tenho simpatia por quase todos esses que fracassam na estréia e fazem sucesso bem depois, com o boca-a-boca. O Homem de Palha (1974) é um deles. Christopher Lee foi o Drácula em pessoa e mata a pau até hoje, mas aqui periga ter o seu grande papel. Falei que não tô a fim de ver a refilmagem? Nota 7,5.

Meio chato Orgulho e Preconceito (2005). Desta vez não teve Ang Lee nem Emma Thompson pra salvar, né, Mrs. Austen? Nota 6,5.

Agiota desonesto cria que nem cachorro, desde pequeno e de coleira e tudo, um japa no porão. Acreditem ou não, esta é a história de Cão de Briga (2005). Óbvio que não foi um plot desses que me atraiu, nem mesmo Jet Li, que sempre diverte. O fato é que o diretor é um tal Louis Leterrier... do novo Hulk! Cuida bem do verdão, cara. Tô nos teus bico! Nota 6,5.

O ano vai acabando e nos faz tirar algumas conclusões. Uma delas é o altamente bem-vindo revival do slash terror, por mãos de trintões que cresceram vendo muita VHS mofada em casa. Seres Rastejantes (2005) é o tipo de filme que eu teria orgulho em dizer que fiz. Quem roteiriza a belezinha é James Gunn, do muito-legal-mesmo Madrugada dos Mortos. O cara resolveu assumir a direção e coalha de referências esse Slither; todos os personagens têm nome ou sobrenome de lendas do gênero (Hooper, Carpenter, Romero) e muita cena é chupada de material alheio (Noite dos Arrepios, Alien, A Noite dos Mortos-Vivos). Outro presentão é a presença de Michael Rooker, um dos melhores atores B ever (quando é que chega Henry: Retrato de um Assassino em DVD?), numa atuação que vai do emotivo ao gore em questão de segundos. Diversão garantida, ou sua locação de volta. Nota 7,5.

Lá pela meia-hora de Despertar dos Mortos (1978), George Romero parece acordar pra vida e dizer “bem, vou fazer um filmaço!”. A partir daí o nível de sanguinolência, que já não era brincadeira, atinge níveis inimagináveis, com muitos closes de músculos e vísceras sendo arrancadas a dentadas e unhaços. Punk como a gente gosta. Amigo meu lá do jornal, do alto de seus 40 e poucos anos, veio dizer que na época que viu no cinema a galera ficou semanas sem comer carne... A trilha e os planos elegantes são coisa de um Kubrick ou Bergman (não, eu não estou exagerando) e os dublês também merecem aplausos (as crianças mortas-vivas convencem na hora que o pau come, um zumbi tem a tampa da cabeça arrancada pela ação de uma hélice de helicóptero, outro pobre-coitado leva um safanão e dá de cara numa moto... em movimento). Um sangrento superespetáculo. Nota 9.

Me criei vendo O Enigma de Outro Mundo (1982) na Sessão da Tarde, mas minhas poucas memórias dele eram muito gelo e a cabeça andando com perninhas de aranha. Como é que passavam todas aquelas nojeiras nesse horário? Nota 8,5.

Outro cráááássico da Sessão da Tarde foi Viagem Fantástica (1966). A cena final, em que os miniaturizados escapam de dentro do corpo através da lágrima do pobre-coitado, não dá pra esquecer. Nota 8.

Sabia que O Homem dos Olhos de Raio-X (1967) tinha Ray Milland no elenco e tal, só não lembrava que era do Roger Corman, o bisavô dos cineastas independentes. Só ele mesmo pra filmar aquele final incômodo e muito trash. Nota 8.

A grande atração de O Corvo (1963), tirando o embate Boris Karloff x Vincent Price, é um Jack Nicholson em vestes de soldado imperial e com cabelo esvoaçante. Mais um clássico de Corman. Nota 8.

Antes de virar o grande astro de ação dos sixties, Steve McQueen estrelou A Bolha (1958). Um canastrão, diga-se. O filme nasceu terror e virou comédia, e diverte por isso. Nota 7.

Ainda inédito em DVD e uma missão impossível para achar em fita de vídeo, Quadrilha de Sádicos (1977) perdeu um pouco do impacto original. Vi piratão mesmo, sem legendas e pela primeiríssima vez na vida. Posso estar falando bobagem, mas achei o remake melhor, mais tenso e bem escrito. Mesmo assim, Wes Craven em estado bruto é melhor que toda essa merda que tá aí. Nota 8.

Pânico na Montanha (2004) é mais um média-metragem da série Mestres do Terror, desta vez dirigido por um tal Don Coscarelli. Mestre ele não é. Nota 5,5.

Já Takashi Miike é sim, um mestre. Marcas do Terror (2004), sua contribuição para a série da HBO, teve a exibição vetada na última hora pela emissora americana. Acharam muito pesado pros padrões deles. Queriam o quê? Algo insosso, inodoro, indolor? Que contratassem a equipe de Jogos Mortais, pois! Imprint é o horror em sua forma mais pura e poderosa, com direito a uma cena de tortura niilista pra caralho, marcante, hipercinética. Por que é tão difícil que a filmografia desse cara chegue até nós? Nota 8.

O Novo Mundo (2005) é um dos melhores filmes do ano. Ponto. Nota 8,5.

Quem achou que Spike Lee fosse abandonar seus comentários sociais para dedicar-se à ação non-stop em O Plano Perfeito (2005), enganou-se. Uma cena resume bem isso, quando um refém sikh, de barba e turbante, ganha umas porradas da polícia - ao ser confundido com um árabe, ele desperta o receio de um ataque terrorista. É o toque pessoal de alguém que transforma o que poderia ser mais um thriller inócuo numa obra espirituosa. Nota 8.

Loiríssima, ameaçadora e quase sempre pelada em cena, Sharon Stone deve ter quebrado o recorde mundial em homenagens no banheiro depois de Instinto Selvagem. Agora, quase 15 anos se passaram e em IS2 (2006) Sharon já não tá assim-assim. Continua charmosa, mas o corpo é de quem pegou praia, botox e bisturi demais. Suas caras e bocas ultrapassam a fronteira do ridículo; parece atuar sempre à beira de uma gozada. Ainda trocaram Michael Douglas, um cara que poderia comer uma árvore (no mau sentido), praticamente o Zé Mayer deles, pelo inexpressivo David Morrissey. E se cinemão com cenas picantes virou clichê, nem isso o filme tem, com muito roteiro para pouco sexo. Os ares são de um Cine Privê de luxo, para ver apertando o forward no controle. Nota 5.

Não faço muita questão de me envolver com esses mistérios de Lost. Sou nerd o bastante para partir em busca de outros tipos de cultura inútil, algo que não me faça entrar em grupos de discussão com uma cambada de viciados em chips e cherry coke. A 1ª Temporada (2004) é legal, com todos seus altos e baixos. Vou continuar acompanhando, mas que é muita punheta, isso é! Nota 8.

Ultravioleta (2005). Aaaaaaaargh! Meus olhos, não consigo enxergar! Nota 3.

Atom Egoyan não exibe em Verdade Nua (2005) metade do talento mostrado em O Doce Amanhã. Será ele um enganador? Só o tempo dirá. Por outro lado... Kevin Bacon, sempre bem. Colin Firth, boas caras de tarado. Alison Lohman, apetitosa (já tem 18?). Nota 6.

Adorei A Lula e a Baleia (2005). Roteiro saboroso, dupla central despida de estrelismos (Laura Linney safaaaada, Jeff Daniels em luminoso momento Bill Murray), trilha bizarra. Um dos poucos filhotinhos de Wes Anderson que deram certo. Filmão. Nota 8,5.

Bonecas Russas (2005) dá seqüência às aventuras de O Albergue Espanhol. É cinema europeu jovem, sem grandes afetações ou aspirações. O original já não era grande coisa. Veja, se o tempo for seu amigo. Nota 7.

Só o fato de ambientar uma história de amor nos escombros da bomba atômica já daria a Hiroshima Mon Amour (1959) todo o nosso respeito. E o Resnais ainda vai lá e faz uma obra fodida de boa, cheia de símbolos e idas e vindas no tempo. Como muitos filmes de arte, jamais será inteiramente apreciado e entendido. Não consigo imaginar o público de Páginas da Vida assistindo isso. "Sensorial" é a palavra. E que fim deu Emanuelle Riva, hein? Grande atriz, a moça. Nota 8,5.

Michael Mann, um grande diretor à procura de um bom roteiro. Miami Vice (2006) entretém, empolga e ao mesmo tempo desaponta por não trazer mais sustância para nós, fãs de Coppola e Scorsese. Nota 7,5.

Vôo United 93 (2006) é trepidante do início ao fim. E que fim! O grande feito de Paul Greengrass foi mostrar que o heroísmo do vôo foi simplesmente entrar em pânico e tentar sobreviver. Ele põe a platéia no meio de toda aquela algazarra no avião e a faz enxergar a morte bem de pertinho. O mais eficaz simulador de vôo da história. Sabe quando a gente sai do cinema com as pernas bambas? Pois é. Nota 8,5.

Bem mais apelativo, As Torres Gêmeas (2006) tem coisas como Nicolas Cage gritando "rrrruuuuuuuunnnnnnn...!" em câmera lenta, marines obstinados vindo de longe para salvar os bombeiros, crianças e esposas se esvaindo em lágrimas e por aí vai. São cacoetes Rambo-Michael Bay que não combinam com o tema delicado. E menos ainda depois de Team America, né, seu Stone? Nota 7.

Desculpaí a heresia... mas tem dias que a gente não devia ir ao cinema. Entrei na Casa de Cultura com a certeza absoluta de que ia amar Cinema, Aspirinas e Urubus (2005). Não foi isso o que a noitada anterior permitiu. Pronto, já pode me bater. Nota 7,5.

Abismo do Medo (2005) vai me obrigar a seguir cada passo do diretor Neil Marshall (que já tinha feito bonito em Dog Soldiers). Terrorzinho fodido! Nota 8,5.

Raras vezes se viu um filme que dividisse tanto assim as opiniões quanto Dália Negra (2006). É um Brian De Palma exagerado como nunca. Com pelo menos duas cenas acima de qualquer crítica: a descoberta do cadáver e a morte de um dos personagens centrais na escadaria. De tirar o fôlego. Nota 8.

Todo Mundo Quase Morto (2004) tem humor e inteligência por todos os lados, personagens bem compostos, roteiro impecável e um desfecho capaz de levar o público ao delírio. É muito difícil exigir mais de um filme do que o que encontramos aqui. Mande uma banana pro título imbecil que Shaun of the Dead ganhou no Brasil, corra atrás e tenha aquele orgasmo múltiplo que você sempre sonhou. Ele é assim de bom. Comprei e vou ver todo ano. Quer, eu te empresto. Nota 9,5.

Míseros R$ 9,90 por Ghost World (2001) numa banca de revistas no centrão de Porto Alegre. Sorrindo até agora. Nota 8.

O ritmo de piadas de Friends é tão insano que me deixa extenuado. Estou certo que deixei de pescar algumas piadas ótimas da 4ª Temporada, porque tem uns episódios que fundem a cuca de tanta graça. Será seqüela? Nota 8,5.

Dá raiva ver subprodutos sem alma como Gatão de Meia-Idade (2005) ganhando espaço de luxo num circuito repleto de produções brasileiras interessantes que permanecem sem distribuidor, e que certamente teriam alcance igual ou bem maior que lixos como este. O enredo é baseado nos quadrinhos de Miguel Paiva e podia render algo divertido mas, oh Deus, não é isso o que a gente vê na tela. Alexandre Borges se esforça pra viver Cláudio, um quarentão solteiro e galinha que começa a sentir o peso da idade. Ri-se justamente da pior coisa que pode acontecer a uma comédia: a falta de graça. As situações são dignas daquelas pornochanchadas do Canal Brasil, com direito a nudez gratuita, uma trilha sonora insuportável e diálogos de uma patetice só. O pior filme de 2006 já tem nome - isso enquanto não sai o novo da Xuxa. Nota 2.

O Mestre da Guilhotina Voadora (1975) é daqueles que te fazem urrar de prazer de tão excêntricos. Podia ser rebatizado para A Batalha dos Inválidos ou algo do tipo... em que outro filme você vai ver o herói sem um braço saindo na porrada com um vilão que é cego? O roteiro praticamente não importa, cedendo espaço para as lutas absurdas. É gente caminhando pelas paredes, se equilibrando em pontas de espadas e espichando as mãos como o Dhalsim do game Street Fighter II. E foi daqui que Tarantino tirou a cena de Gogo e sua arma mortal, numa das cenas mais afudê de Kill Bill. Podreira das boas. Nota 8,5.

No fone: Grizzly Bear - "Easier"

11/03/2006

Mais cinco minutos, por favor

...Só deixa eu me recuperar das férias. Esta semana sai.

No fone: The Killers - "When You Were Young"

9/18/2006

Deformidades, goonies, kikitos, lagartos, gorilas e um argentino


Uma família em férias, cujo motor home tem os quatro pneus furados no meio do deserto, fica à mercê de um bizarro grupo de humanos deformados, gerados a partir dos testes nucleares que o governo realizou na área.
Incrível que, partindo da mais esquemática das premissas, o remake de Quadrilha de Sádicos (The Hills Have Eyes, 1977; conseguiram cagar com um baita título original duas vezes) ergue fácil a taça de terrorzão nº 1 da temporada. Viagem Maldita é um feito. Não tem a vontade de ser inteligente daquele insosso cocozinho infantil chamado Jogos Mortais, nem a ausência de medo que comprometeu em parte O Albergue. É uma cacetada só, uma catarse cinematográfica comandada com um gás impressionante pelo ainda novato Alexandre Aja (do igualmente fiadaputa Alta Tensão, já comentado aqui). Desde que o vi, confesso que passei a reforçar melhor as portas e janelas lá de casa.
O trabalho da direção é mesmo o grande chamariz. Aja molda seus personagens com carinho, e cada bate-papo não é mero pretexto para levar alguém para a cama (ou sofá, ou mato, ou lago) como num Jason da vida. Todos eles discutem seus problemas, reclamam do pneu furado, falam de política, sofrem com calor, fome e sede, beijam a testa dos filhos, exatamente como nós do lado de cá. O negócio é punk porque, segundo a cartilha tradicional do gênero, sempre os primeiros a morrer são os chatos e egoístas. Aqui, não. Assim, quando eles finalmente sofrem o primeiro ataque (na seqüência mais insuportavelmente apavorante) o espectador sente na pele cada mutilação, cada grito de desespero, cada esguicho de sangue. E ainda botaram um nenê ali no meio daquelas barbaridades todas. Um nenê, cara... recém-nascido... putz.
E os cagaços, então? Vou ao cinema quase toda semana desde os meus 15, 16 anos e confesso que nunca, NUNCA tinha presenciado tanta gente pular da cadeira. Alguns sustinhos são mamata, outros nem tanto. Aja é daqueles que fazem de tudo pra que o espectador não queira ver o que está na tela - e ainda filma o terceiro ato durante o dia, num sol de rachar, ao melhor estilo Seven. A atmosfera árida, a edição e o posicionamento da câmera criam um cenário pós-apocalíptico, bem Mad Max mesmo. E o que era aquela trilha recheada de barulhinhos undergrounds de 1970 e picos?!
Claro que os remakes ruins vão superar os bons, sempre. Mas se de cada cem sair um massa como este, então o mundo tem remédio, sim senhor. Espero que Aja não vire tão cedo um fantoche de estúdio, como aconteceu com o Craven. Mas aí já terei em mãos o meu DVDzinho em edição especial, com seus dois minutos de sanguinolência censurada, para rever sempre que tiver vontade de... chamar o Hugo. Nota 8,5.

O nível de qualidade do Festival de Gramado, sempre se soube, não é dos melhores. Vez que outra aparece por lá um O Filho da Noiva, mas é muito raro que filmes realmente fora de série sejam selecionados. Anjos do Sol, um longa corretinho, saiu vencedor este ano. O relato é de um tema espinhoso: a exploração sexual de crianças em áreas distantes onde noções de lei ou cidadania não parecem existir. Tudo muito bem feitinho - o diretor Rudi Lagemann vem direto da publicidade, currículo-base de cineastas como Fernando Meirelles e Walter Salles. Um dos problemas que acabam minando algo da credibilidade desta sua estréia é o desenho dos vilões; por mais que Antonio Calloni, Otávio Augusto e Chico Diaz estejam ótimos em cena, seus personagens são muito espetaculosos e caricaturais pruma fita que almejava ser realista. Mas torço pra que faça uma boa graninha. P.S.: o Gordo é o cara mais mochileiro que eu conheço, por isso foi uma experiência muito diferente estar ao lado dele na sessão. Foi mais ou menos como estar acompanhado de um guia turístico. De vez em quando ele largava um "olha só, a Cidade Baixa de Salvador!" ou "bah, mas aquele índio não podia cortar a macaxeira daquele jeito". Nota 6,5.

O que esperar de algo chamado King Kong x Godzilla? Muita pancadaria entre os monstrengos, não? Pena que isso o filme tenha pouco. Cometido em 1962 pelo megafalcatrua estúdio japonês Toho, o longa traz uns bichos de borracha de fundo de quintal trocando socos, pontapés e rabadas em três breves seqüências. Os fãs de um bom e velho trash até vão topar com uns achados. A primeira aparição pública do lagartão, por exemplo, é antológica: ele sai de dentro de um iceberg a cabeçadas, e um japa num avião grita "Gojiraaaaaaa!", meio que batizando o bicho do nada. A de Kong não fica atrás. Após uma louca dança conjunta em que uma cambada de índios (tudo japonês pintado de preto e com panos embaixo dumas saias de palha, algo inacreditável) evoca os deuses da chuva, o gorilão chega CHEGANDO. Mal-feito pra dedéu, com uma fantasia pior que aquelas de carnaval. Ah, e para o diretor a Ilha da Caveira fica logo ali, em Tóquio. Como de praxe nesses B nipônicos, todas as maquetes são de papelão e isopor mal pintado, e os atores exibem uma canastrice que não dá pra perder. Pensando bem, mesmo com baixo nível de porrada a diversão é garantida. Nota 6.

Harrison Ford ainda tem fôlego para correr atrás de nazistas, cartéis de drogas, extraterrestres, terroristas e o escambau, mas um bom roteirista o cara não pega desde os tempos de O Fugitivo (1993). Firewall é mais um material de segunda linha estrelado por ele. Por mais que seja bacana a cena em que o Indiana mata um dos bandidos a golpes de liquidificador (!), é difícil levar a sério coisas como um vilão Bombril que é hacker, assassino frio e um mentiroso de primeira, tudo ao mesmo tempo agora. Falando nisso, os produtores não perdem a chance de faturar em cima do patrocínio - é Microsoft aqui, Nokia acolá... até um iPod salva a pele do mocinho! E os diálogos, então? "Onde você vai?"; "Achar meu cachorro!", e o Harrison arranca a mil, em busca da família seqüestrada. O pique é até legalzinho da metade pro final (quando Ford atravessa vidraças, escala prédios, quebra paredes de madeira e sai no braço com caras 30 anos mais jovens), mas aí a credibilidade já foi pro saco há horas. "Alô, Spielberg? É Harrison falando! Harrison FORD, tá lembrado...?". Nota 5,5.

Terra Fria é o enésimo mulher-forte-luta-contra-as-injustiças-do-mundo, na esteira que já nos deu Norma Rae e Erin Brockovich. Com direito a momento "eu sou Spartacus!" e tudo. Não rola, né? Nota 6.

Algo como a Primeira Temporada de Sex and the City diz muito mais sobre as mulheres que qualquer Terra Fria. Mesmo com toda a simplorice. Nota 7,5.

Nada muito o que falar sobre A Névoa, mais uma bola-fora desses maditos remakes hollywoodianos. Tudo bem darem uma nova roupagem a King Kong ou O Massacre da Serra Elétrica, obras que marcaram época. Mas quem se lembra de A Bruma Assassina? Olha só a idéia dos caras: comunidade costeira na Califórnia é completamente cercada por uma densa (e mortal) névoa. Veja bem, a ameaça não vem de tubarões, terremotos ou psicopatas de faca na mão, mas uma fumacinha mixuruca que não mete medo em ninguém! Ainda menos em nós, moradores rio-grandinos, que já tamos acostumados à maldita cerração outonal - isso sem falar nos gases poluentes emitidos pelas indústrias em dia de chuva... Aquilo lá, sim, é de arrepiar os pentelhos! Nota 3,5.

Os Goonies vem de uma época em que sequer se sonhava com DVDs, muito menos com extras recheados de entrevistas, making of e cenas excluídas. Uma época em que a Sessão da Tarde obrigava a gente a se atrasar para a aula de Educação Física. Em que uma frase tipo "come em cima dum prato!" não fazia muito sentido pra mim. Uma época em que o Spielberg resolveu ser Walt Disney, e ouvir Cindy Lauper era uma coisa muito legal pra se fazer. Já disse que sempre volto a ser criança com o Sloth? O disquinho do filme foi um presente do impagável Raphael, diretamente de Londres, que chiquê. Nota 9 (por muito, muito tempo foi DEZ).

Um híbrido curioso esse O Amigo Americano (1977). É thriller com andamento de filme de arte, comandado com tesão por um Wim Wenders jovial. Só que o legal mesmo é ver Dennis Hopper no ápice da loucura. Foi mais ou menos nessa época que ele foi encontrado peladão numa rua escura, à noite, falando um amontoado de frases desconexas. Drogadito, eu? Nota 8.

Esses hermanos... Esta semana pintou lá em casa o cult em potencial O Abraço Partido. A ação é ambientada em Buenos Aires, mas o pano de fundo podia ser qualquer cidade brasileira, européia ou asiática. Do alto de seus 20 e poucos anos, Ariel (Daniel Hendler, num tour-de-force merecedor de muitos prêmios e aplausos) trabalha com a mãe numa galeria comercial decadente, onde eles têm uma loja de lingerie. Os lojistas da galeria misturam italianos, coreanos e uruguaios, e são quase como uma grande família. O magrão sonha em conseguir um passaporte polonês, para morar na Europa e assim se aproximar do pai, que abandonou-os antes do seu nascimento para lutar em Israel. A globalização e a multicultura estão aí, e manifestações artísticas como esta servem pra mostrar que mesmo sendo todos iguais, precisamos descobrir um pouco mais sobre nossas origens, nossas raízes. Acima de tudo é um filme do povo, espirituoso, de se identificar com detalhezinhos aqui e ali (vai dizer que a tua avó não deixa a água fora da geladeira "por causa da garganta"?) e chorar de emoção por isso. Amores Brutos, Nove Rainhas, Plata Quemada, Whisky, Diários de Motocicleta, Campanella e agora este: é tanto filme fodão que volta e meia bate um orgulho danado de ter nascido por estas plagas. Nota 8.

No fone: Camera Obscura - "Let's Get Out of this Country"

9/11/2006

Picanha

Querido leitor, seguinte: saí na Zero Hora de sábado. Cortesia do sempre excelente Rodrigo Santos, que fez uma supermatéria sobre a situação dos cinemas aqui no interiorzão gaúcho.
...Autógrafos, a partir desta semana.

No fone: Iron and Wine - "Cinders and Smoke"

9/04/2006

Campanella & Brant mostrando serviço, um Cronenberg revisto, Steve Martin vice-versa...


Na crítica cinematográfica, costuma-se falar muito em obras baseadas em romances tidos como "infilmáveis". Naked Lunch, livrinho claramente escrito sob efeito de drogas pesadas pelo doidão William S. Burroughs e transformado em desconcertante obra-prima por David Cronenberg em 1991, merece esse jargão mais do que qualquer outro. Sabendo que a tarefa era impossível, e mandando uma grande banana para a indústria que mais mata artistas no mundo (thaaaaat's Hollywood), Cronenberg foi lá e fez Mistérios e Paixões. Fico imaginando as pessoas que alugam um filme pelo título dando de cara com gente viciada em veneno de barata, enrustimento homossexual e alucinações capazes de transmutar máquinas de escrever em insetos gigantescos, com esfíncteres falantes e repletos de secreções.
Tinha visto o filme uma vez só, em VHS, lá pelos meus 12, 13 anos. Boa parte dele permaneceu comigo, e essa sensação, espero que alguém aí já tenha tido, é boa demais. O ex-Robocop Peter Weller é impecável como Bill Lee, escritor frustrado que extermina baratinhas para pagar suas contas. Sua mulher Joan (Judy Davis, amarga que ela só) está viciada no barato que o pó lhe causa; Bill dá uns tecos na substância e entra num processo interminável de viagens. Chega uma hora em que, tão alucinados quanto ele, já não sabemos diferenciar a verdade e o delírio. Uma proeza beatnik, feita sob medida para o grande público odiar de verdade. Donos de mente aberta e estômago forte, façam sua parte e amem-no, amem-no com todas as forças. Nota 9.

Meu amigo Rodrigo resumiu bem Piratas do Caribe - O Baú da Morte na saída do Cine Figueiras: enquanto ação, é melhor(zinho) que o primeiro; já o roteiro parece ter sido escrito a quatro mãos por Renato Aragão e Ronaldo "Chespirito" Bolaños. Isso aí. Fora o enredo, o qual nem é bom lembrar, é dose suportar quase duas horas e meia de gente feia, suja e unilateral - tirando Orlando Bloom e Keira Knightley, todo mundo parece interpretar com uma colher de sopa de Nescau na boca. Tudo bem que dentistas eram raros na época, mas aquilo lá já é demais. Nota 6.

Eles tinham razão: Tomilidiones é mais diretor que ator. Três Enterros, seu début, revela um cineasta literalmente com as rédeas na mão e calejado na direção de atores. Muito além do que aquele rosto durango e cheirando a pêlo de cavalo mostra na telona. Vai pegar a câmera, homem! Nota 7,5.

Não percam os extras do DVD de Crime Delicado. Acompanhar de pertinho o sessentão Walter Carvalho, um dos maiores fotógrafos do cinema, explicando com minúcias o seu trabalho enquanto queima unzinho sentado à mesa de bar é algo que não tem preço. O filme, ainda mais imperdível, traz uma coleção de planos fixos per-fei-tos; numa seqüência em particular, toda desenrolada em cima do palco (aprende, Camurati), o Nachtergaele faz questão de reforçar quem é o melhor ator do Brasil. A dobradinha Beto Brant-Marco Ricca (de O Invasor) é para ficar de olho. Nota 8.

V de Vingança tem algumas boas idéias e impecáveis elenco e produção. Deve fazer bonito nas locadoras, mas de NOVO, de empolgante e inspirador como se pensava que fosse, traz pouco. Será que eu esperava um novo Matrix? Os colhões da fita são inegáveis, ainda mais nesses tempos de WTC: fala-se em bioterrorismo, escutas ilegais, campos de detenção... Assumidamente esquerdista, essa adaptação de Alan Moore é dirigida meio no susto pelo estreante James McTeigue, assistente de direção na trilogia de Neo; os Wachowski só assumiram o roteiro e a produção. Algumas ideologias impostas pelo roteiro são questionáveis (mostrar o terrorismo como única saída para fazer o bem, por exemplo), e certas seqüências pediam um pouco mais de intensidade, de sangue mesmo. O negócio é deixar o som no volume mais alto possível e se empanturrar com aquela pipoca do saquinho rosa. Nota 7,5.

Muito se falou na revolução que O Coronel e o Lobisomem provocaria nos efeitos digitais brazucas, que seria um divisor de águas e blablablá. Coisas da produtora Paula Lavigne. Qualquer Um Lobisomem Americano em Londres, feito num longínquo 1981, bate ele. O filme não é engraçado, romântico ou assustador. Diogo Vilela e sua barba Los Hermanos não incomodam tanto, mas Selton Mello e Ana Paula Arósio estragam a festa. Que vozinhas irritantes, e (agora me referindo só a ele) que desperdício de ator. Investir em efeitos não é mesmo coisa pra artista brazuca, mas de acertar o tom do elenco a gente entende, né? Quem não lembra do medão que dava quando pintava o professor Astromar em Roque Santeiro? Aproveitando a deixa, por que não incluíram na trilha aquela "mistérios da meia-noite, que voam longe..." no lugar de três ou quatro faixas do Caê, hein Paulinha?? Nota 5,5.

Quando o ator é realmente interessante, não dói tanto ter de agüentar filmezinho de doença da semana. Sem William H. Macy, talvez De Porta em Porta fosse mais um desses Supercines chororôs. Bom que o renegado astro de Magnólia e Boogie Nights faz questão de mostrar que papéis centrais são com ele mesmo. Nota 7,5.

Quem sente saudade da época de Antes Só do que Mal Acompanhado, Roxanne e Um Espírito Baixou em Mim não vai saná-la com A Garota da Vitrine. Pelo contrário, vai conhecer um Steve Martin sério e contido. Sua atuação não é digna do Oscar; já o roteiro, de sua autoria, pode ganhar alguns admiradores, em especial os fãzocas de Lost in Translation e Rushmore. Claire Danes e Jason Schwartzman me conquistaram de vez. Nota 7,5.
Mais óbvia, a nova A Pantera Cor de Rosa traz o Steve Martin que todos gostam: paspalhão, cara de pau e dono de uma incomparável expressão corporal. Aqui ele protagoniza muita piada vista e revista, mas eu já havia esquecido de ter dado duas gargalhadas, daquelas de ficar sem respirar, numa comédia. Mesmo não sendo a oitava maravilha, não é tão merdão quanto se pintou por aí. Nota 6,5.

Lá pelas tantas de Clube da Lua, Eduardo Blanco e Ricardo Darín estão confortavelmente sentados num sofá, assistindo à TV e discutindo sobre suas vidas amorosas. Papo vem, papo vai e aí o primeiro se vira e liberta uma sonora flatulência quase na cara do outro. Se o peido foi mesmo de verdade eu não sei, mas o ato ilustra bem essa primeira trinca concluída pelo diretor Juan José Campanella (fecham o pacote O Mesmo Amor, a Mesma Chuva e O Filho da Noiva): um esforço conjunto natural e que flui como poucos, cujo resultado vê-se na tela, integral, do trabalho com o cast à fotografia e a montagem. Gosto de pensar que o clima de confraternização visita o set todo dia. E as lágrimas também. Pensando seriamente em comprar uma camiseta da Argentina. Nota 8,5.

Só a idéia original já é merecedora de alguns prêmios. Totalmente Kubrick exibe o manjado carimbo de "baseado em fatos reais", com atrações extras para os cinéfilos. Trata-se da história real de Alan Conway (John Malkovich, a-do-ran-do a função); apesar de nada saber sobre o trabalho de Stanley Kubrick, ou mesmo ser parecido com ele, esse picaretão resolveu tocar o terror e convenceu uma série de pessoas que era o diretor durante as filmagens londrinas de seu canto de cisne, De Olhos Bem Fechados. O responsável por este Colour me Kubrick, Brian Cook, foi diretor-assistente do cineasta em Barry Lyndon e O Iluminado, entre outros. Deve ser por isso que a produção funciona ao também salpicar, aqui e ali, referências e brincadeiras com a obra do mestre. Cool. Nota 6,5.

No fone: Bob Dylan - "Rollin' and Tumblin'"

8/25/2006

Hitch das antigas! Badlands, In Cold Blood!!

Isto vai parecer meio gay, mãããns... vá lá: não consigo caber em mim de tanta alegria!! Porque acabo de assistir a um dos filmes da minha vida, A Sangue Frio (1967). Licencinha, mas não dá pra não encaixar uns adjetivos aqui.
O esquema é baseado no livro homônimo de Truman Capote, e quem não conhecia teve sua chance este ano nos cinemas, com o Seymour na pele do escritor: dupla de assaltantes chacina uma família inteira numa cidadezinha do Kansas. Tudo isso por míseros 40 dólares, um rádio e um binóculo.
O estilão imposto pelo diretor Richard Brooks em quase todos os setores garante à produção um frescor que não se vê em tudo que foi feito de 1970 para trás. O elenco é mais naturalista, já não traz aquela empostação que às vezes acaba distanciando as novas gerações dos clássicos. Crássico que é crássico, aqui entre nós, não precisa de astros. Tem é que durar. E isso, este aqui tem de montão. Impressionam os assassinos interpretados pelos desconhecidos Robert Blake e Scott Wilson (sarcasmo e maneirismos idênticos aos de Edward Norton). Quincy Jones fornece ao longa toda a eletricidade que ele necessita, com um tema musical jazzístico-fodástico - exatamente a trilha que eu imaginei praquelas festas descritas por Kerouac em On the Road. Quincy foi indicado ao Oscar, bem como a direção e o roteiro de Brooks e a fotografia em P&B do falecido Conrad L. Hall (de Beleza Americana). As curiosidades são muitas: o estúdio queria a dupla Paul Newman e Steve McQueen como protagonistas, mas Newman preferiu atuar em Rebeldia Indomável, enquanto McQueen optou por Bullitt; para dar autenticidade ao filme, Brooks rodou nas locações onde os fatos realmente aconteceram, incluindo a casa dos Clutters; e as fotos vistas nos quartos da casa são da verdadeira família.
Não há o que discutir: foda até dizer chega. Vou ter que pedir o livro emprestado pra sogrona. De novo. Nota 10.

Tivesse o décimo do carisma de um Jack Nicholson, e William Hurt era hoje um dos maiores astros do cinema. Mas não. Ele se contenta em ser "apenas" um dos grandes atorzaços que têm por aí. O neo-noir Corpos Ardentes, filmão que pinga suor como poucos, é prova disso. Junto a Hurt e Kathleen Turner, é grande o prazer em ver Mickey "Marv" Rourke na flor da idade, e recitando umas falas tarantinescas em pleno 1981. Lawrence Kasdan era "o" roteirista mesmo. Nota 8,5.

Me diverti às vera com Os Produtores - mesmo com este meu, admito, pé atrás com remakes. Se o clássico de Mel Brooks era tão redondinho, pra quê dar a ele uma nova roupagem? Apresentá-lo às novas platéias? O DVD tá aí pra isso, não?! O legal é que todo mundo só pode ter ficado em estado de delírio durante as filmagens desta adaptação de Primavera para Hitler. Nathan Lane e o Ferris Broderick fazem uma parceria gozadíssima, e o elenco de apoio (tirando Uma Thurman e Will Ferrell, quase todo desconhecido) não fica atrás. Os números musicais não são o bicho; ao final quem reina é a metralhadora de gags deliciosamente idiotas. Por que o Casseta não é mais assim? Nota 7,5.

A simples presença de seres urbanos é capaz de provocar um revertério no cotidiano do interior, uma vez que alguns moradores, pacíficos e satisfeitos com suas vidinhas jecas, começam a se sentir inferiores em comparação aos visitantes. Eu, que moro em Rio Grande, nos confins do RS, já passei por situação semelhante. O jeitão provinciano comanda por aqui. As dificuldades impostas pelo baixo orçamento são visíveis, porém Retrato de Família (Junebug) é daqueles pequenos filmes com identidade própria e um coração que bate forte. Bom dizer que o seu charme é visível somente aos olhos dos espectadores mais pacientes; nada é resolvido com facilidade, porque a vida, minha gente, não é nada fácil. Destaque para as canções da trilha, todas assinadas pelo legalzão Yo La Tengo. Nota 7.

Vez que outra aparece um Profissionais do Crime por aqui. Gozado que Fulltime Killer virou cult na terra do sol nascente, onde todo mundo adora uma pancadaria coreografada. Não à toa, a produção estrelada pelo big star Andy Lau arrecadou não sei quantos milhões no Japão. Os brasileiros ainda preferem o bom e velho estilo hollywoodiano de se contar uma história de ação (leia-se 10 explosões + 5 tiroteios + 0 roteiro), e deve ser por isso que a gente nunca tinha ouvido falar desse filhotinho de John Woo. Amantes do cinema de referências têm aqui um compromisso inadiável: na mesma panela, são cozinhados Caçadores de Emoção, O Profissional de Luc Besson, quadrinhos, música pop e muito mais temperos. É por isso que eu digo... viva o DVD. Nota 7.

Tem uma cena em Six Feet Under, acho que na quarta temporada, em que os personagens estão curtindo Terra de Ninguém (1973) num desses madrugadões da TV. Que vontade me deu! Quando o achei num site de compras, comprei-o-o sem hesitar (thanks, Pimpidrigo). Tinha certeza que uma pérola me esperava. A maioria acha Malick pedante, pseudo-filósofo ou, pura e simplesmente, um "chato"; outros, como este que vos fala, conseguem admirar a beleza inusitada que ele impõe a barbaridades como casais de jovens assassinos, índios escalpelando ingleses com muita vontade e soldados ingênuos explodindo granadas dentro do bolso. Digo e repito: Terrence Malick é um profundo conhecedor da alma humana, e o cinema foi inventado para cineastas como ele. Nota 8,5.

Quem vê Kevin Spacey e Morgan Freeman posando de machões no cartaz de Edison - Poder e Corrupção garante que está prestes a assistir a um grande filme, com personagens complexos, cheios de traições e segredos. Nenhum dos astros, entretanto, é suficiente para compensar outra figura presente não apenas no cartaz original como em todo o filme: o pseudo-cantor Justin Timberlake. Até podia render um thriller policial bacaninha, não fosse a enfadonha presença do ex-Britney Spears e do roteiro, carente de continuidade e repleto de situações mal desenvolvidas. Saca só a viagem: um reporterzinho iniciante decide, da noite para o dia, acabar com a corrupção policial de sua cidade. Tudo isso em busca de nada menos que... o Pulitzer! Faz-me rir. Nota 3,5.

Produção da Globo Filmes é isso aí: quando o enredo ameaça sair dos trilhos, o negócio é ficar de olho nas participações de luxo: "ih, ó lá o Bial"; "bah, o careca marido da Marta da novela das oito!"; "o zolhudo do Zorra Total!"; ou "putz, mas o Francisco Milani não morreu?". Irma Vap - O Retorno, inspirado na bem-sucedida peça de mesmo nome, é bem isso. Um amontoado de astros e estrelas globais (ainda tem Arlete Salles, Marieta Severo, Diogo Vilella, Paulo Betti, Louise Cardoso...) derramando um punhado de frases feitas de dar dó, e que só servem para cumprir contratos. Nanini e Latorraca, competentes como sempre, arrancam suas gargalhadas; o problema é que a Carla Camurati parece um rinoceronte africano atrás das câmeras. O produto final acaba sendo um tele-teatro projetado em 35mm, um interminável teste para olhos, ouvidos e saúde mental. O artista brasileiro precisa, com urgência, saber diferenciar teatro, cinema e TV. Chega de Frankensteins! Nota 5.

Rodado no mesmo ano da oscarizada estréia Rebecca, Correspondente Estrangeiro (1940) foi o segundo trabalho de Hitchcock em Hollywood. O gorduchão não existia mesmo. Sem nos deixar respirar, o longa mostra um jornalista americano envolvido numa rede de espionagem na Europa, em pleno estouro da II Guerra, e é um claro chamado do cineasta pra que os EUA entrassem no conflito. O apelo marqueteiro é compensado pelas ótimas interpretações e o talento do cineasta. Tem um punhado de cenas antológicas, entre elas o assassinato de Van Meer (essa aí da foto), a eletrizante fuga do repórter no parapeito dos prédios e os 15 minutos finais, onde efeitos especiais surpreendentemente realistas reconstituem a queda de um avião (Roland Emmerich nenhum faria aquilo há 65 anos). Nota 8.

Provando que para ser 007 tem que ser no mínimo um bom ator, Pierce Brosnan deita e rola em O Matador. Sua indicação ao Globo de Ouro valeu mesmo a pena. O filme em si me lembrou muito Matador em Conflito, com John Cusack, A Máfia no Divã e tantos outros em que assassinos têm dificuldade de conviver com gente "normal". Mas a vontade em filmar da direção faz de The Matador um programa dos bons - e com identidade própria. Nota 7,5.

No fone: Nine Black Alps - "Unsatisfied"

8/04/2006

A primeira vez

Carros foi a primeira sessão de cinema de Gustavo Caldeira Halal, uma minúscula criaturinha de 31 meses de idade. Corujices e álbuns de figurinhas à parte, a escolha não podia ser mais acertada - até porque tamos carecas de saber que a Pixar não faz filme ruim. O estúdio, depois de animar brinquedos, insetos, humanos e monstros gente boa, agora investe no objeto mais interligado ao homem industrializado. Assim, desfilam pela telona possantes máquinas de stock-car, caminhões de bombeiro engraçadíssimos, 'banheiras' antigonas, Porsches sensualíssimas... O enredo não precisava daquele efeitinho moral perto da conclusão, né, mas Pixar é sempre Pixar. São muitas as sacadas geniais, a começar por Paul Newman, aqui emprestando seu vozeirão a um carrinho aposentado. E quem diria que o melhor ator coadjuvante do ano seria um caminhão-guincho? Seu Gugu dormiu em cima dum balde de pipocas, para depois acordar e conferir os 15 minutos finais no meu colo. Pelo visto, adorou o esquema. P.S.: Só não levo na Xuxa. Nota 8.

Caraca! Como valeu essa angústia de dois ou três anos pelo terror coreano A Tale of Two Sisters!! Recenzinha lançado em disquinho digital, o verdadeiramente arrepiante e criativo Medo (eita, sr. tradutor!) mostra duas irmãs que acabam de sair do amarelinho e se mudam para a casa do pai & madrasta. As duas são inseparáveis, o pai ausente, e a madrasta, má como o inferno, vive perseguindo a irmã mais nova. A mais velha não suporta a situação, e o tempo fecha seguido entre ela e os coroas. Eis que fatos esquisitos começam a acontecer no casarão, e aí dá pra dizer: há tempos não se via uma fita de fantasmas e suspense psicológico tããããão paulada. Ringu, Ju-On, The Eye, Espíritos? Nenhum oriental mal-assombrado é páreo para este. Nasce um clássico, com visual inacreditável, sustos de verdade, personagens complexos, revelações mil e, o melhor de tudo: encagaçante do início ao fim. Aproveite enquanto o remake não vem. Nota 9.

Vez que outra, faço visitas àquela locadora que não vejo há uma era. É nessas horas que me deparo com antigüidades legais. Outras, nem tanto. Só fui ver Dublê de Corpo (1984) agorinha, depois de velho. Sou um puta fã de Carrie, Um Tiro na Noite, Vestida para Matar, Os Intocáveis e outros do De Palma... Mas esse aí envelheceu um bocado, e, vão me desculpar, não deu pra engolir todas aquelas reviravoltas mirabolantes. Já a Melanie Griffith... Nota 5,5.

O filhote da Globo Filmes A Máquina é aquele tudo-ao-mesmo-tempo-agora já visto em, para ficarmos em dois exemplos recentes, Domino e Moulin Rouge (OK, gosto deste último). Quer ser moderninho mas não passa de um afetadíssimo samba do crioulo doido, fazendo dodói na cabeça do vivente com sua mescla de videoclipe demodé, Teatro do Bebé, programa de auditório a la João Kleber, duvidosos efeitos artesanais e a rebimboca da parafuseta. Pô, e eu amo tanto Lázaro Ramos, Wagner Moura, Paulo Autran, Walter Carvalho, Chico Buarque... Era tanta gente boa envolvida que a decepção com a fita doeu ainda mais. Foda mesmo é a (falta de) direção. João Falcão, filho, coragem não te falta. Mas como diria o nosso poeta Frank Jorge, um pouco de talento não faz mal a ninguém. Nota 5,5.

Vi Nove Rainhas pela terceira vez. Novamente dublado, no SBT. R.I.P., caro Bielinsky. E... gracias. Nota 9.

Pelas mãos do mesmo Stephen Wooley do legalzinho Backbeat, Stoned - A História Secreta dos Rolling Stones parece ser o mais recente capítulo da maior batalha do rock (Beatles x Stones, oras). A atração-mor fica com a reconstituição de época, em que brilham cenários, figurinos e penteados muito freaks. A velha trinca sexo, drogas e rock'n'roll é respeitada - mesmo que a trilha não tenha nada de Stones e as drogas sejam mostradas meio de canto. Já o sexo, ainda que mole e balançando, vem em grandes quantidades; nunca se viu tanto nu frontal numa produção (relativamente) mainstream. Nota 6,5.

De vez em quando pego umas fotos no Adoro Cinema. Sitezinho bem aceitável, traz também cartazes, fichas técnicas, notas de produção e cotação dos leitores. Pois não é que na seção dedicada a A Casa dos 1000 Corpos há só duas notas: um zero e... um 10! Nada poderia ser mais próximo da verdade. Ame ou odeie, Rob Zombie respira ares trashes como poucos. A seqüência Rejeitados pelo Diabo é muito mais bem-acabada e talicoisa, só não traz a alma tão podre quanto a desse primeiro. Tem uma ceninha ao som de "Now I Wanna Sniff Some Glue", dos Ramones, que não tá pra brincadeira. Nota 7.

Estranhamente, o novo Bergman não chegou ao Brasil e vai direto para DVD pela mesma Sony que preferiu não exibi-lo na tela grande. Saraband é fantástico. Os extras são um es-pe-tá-cu-lo à parte, mostrando o processo criativo de um dos pouquíssimos cineastas mitológicos ainda vivos. Que outro filme tem personagens centrais à beira dos 90 anos? E PELADOS? Nota 8.

Entre um Garfield 2 e um O Filho do Máskara, Bob Hoskins se dá ao respeito de participar de coisas legais como Sra. Henderson Apresenta. Excelente ator, esse. Ao lado de uma antagonista do porte de Judi Dench, o homem brilha como nunca. Nota 7,5.

Alta Tensão é o nome de dois filmes. Um deles, com Mel Gibson e Goldie Hawn, de vez em quando estampa a Sessão da Tarde e é uma aventurinha bem leve, descontraída, tipo alguns sopapos e as perseguições de sempre. Mas Alta Tensão é também como foi batizado por aqui Haute Tension, estréia do diretor Alexandre Aja (do novo The Hills Have Eyes) e um festival de grosserias em forma de fita de horror francesa. Ao longo de 91 minutos, somos submetidos a decapitações no melhor estilo Irreversível (sem cortes na edição), motosserras arrebentando caixas torácicas, crianças e cachorros em execução sumária, pedaços de pau enrolados em arame farpado fazendo bonito e a participação especial de uma navalha, capaz de te tirar a vontade de ir ao barbeiro este mês. Tudo é filmado com alto grau de terror, violência e morte. Liberdade criativa é isso aí; pobrezinhos daqueles que ainda se espantam com coisas pretensamente brutas como Jogos Mortais. O já citado Mel "torturador de Jesus" Gibson que deve ter se arregalado com tanto sangue. Nota 7,5.

Numa de suas melhores músicas, o Primal Scream vocifera "kill all hippies!". Eu não iria tão longe a ponto de exterminá-los da face da terra, mas não há quem não compreenda o porquê da letra; esses chatonildos são mesmo a praga da globalização-retrô. Mesmo assim, confesso que foi uma experiência sensorial conferir aquele final de Hair, ao som de "Let the Sunshine In". Cá entre nós, qualquer forma de arte que ridicularize militares e dê força para a desobediência civil merece aplausos. Milos Forman é um dos meus deuses do cinema. Só não venham me forçar a ficar viajando nessa onda hippie-fashion. Nota 8,5.

No fone: The Beatles - "Wait"